“Todo o sentido da organização dos trabalhadores passa pelo sindicato”, afirma o diretor do STIMMMESL, Ailson do Nascimento 

Diretor do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de São Leopoldo e Região (STIMMMESL) há 12 anos, Ailson do Nascimento é trabalhador da Gedore, onde já atuou na Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) e comissão de negociação de PLR. Com essa experiência, ele destaca que “todo o sentido da organização dos trabalhadores passa pelo sindicato.

Casado, pai de três filhos, morado de São Leopoldo, ele tem 47 anos e acredita que uma das principais tarefas de um dirigente é abrir caminho para os mais jovens “Penso que temos que fazer uma transmissão de conhecimento para a categoria estar bem representada no momento que a gente se afastar, saber caminhar”. Nesta entrevista de sexta-feira (18), Ailson fala sobre o momento do sindicalismo, as reformas que retiram direitos e a importância das entidades sindicais serem locais de acolhida.

Conte um pouco da sua história. Como entrou no movimento sindical? 

Meu primeiro passo foi ser sócio. Entrei a convite de um colega na época da Rexnord, lembro quando me associei, estava há dois meses na empresa, recém tinha entrado para a categoria e era uma época bem difícil, o Sindicato estava enfraquecido, tinha pegado a época do Collor, FHC, aquela depressão que tinha quebrado muitas empresas e o Sindicato estava muito fraco de sócios. Entrei naquela época e de lá para cá, nunca deixei de ser sócio em cada firma que eu entrei continuei sócio e fui participando. E um colega de empresa que fazia parte da direção do Sindicato, resolveu sair e me convidou para fazer parte da direção, aí conversei com o ex-presidente, Jorge Correa, fizemos algumas reuniões, vim participando e em 2009 entrei na direção do Sindicato onde estou até hoje.

Você acompanha negociação de PLR. Fale um pouco sobre como o programa pode ajudar os trabalhadores? 

Quando a gente entrou na PLR da Gedore tinha uma cláusula específica no edital de eleição que era proibido a participação de dirigentes sindicais e de cipeiros. Então, eu e o companheiro Nelson Rodrigues, num ano que deu um problema na PLR, falamos que isso estava errado, que éramos trabalhadores iguais e tínhamos o direito de participar, nos inscrevemos e fizemos uma votação histórica na empresa, com 99% dos votos, isso foi em 2010. Tanto que até hoje, os dirigentes sindicais participam da votação para integrar a comissão e são todos aprovados com louvor. A gente achava a PLR muito injusta, porque além de tu pegar e ter que contribuir para o desempenho da empresa, era usado para punição, qualquer coisa eles puniam, se tu tinha um atraso te descontavam, atestado te descontavam, era um fator de muita pressão para os trabalhadores e um cobrava o outro então, quando entramos na PLR mudamos esse aspecto, pois o programa não é para punir ninguém, mas para complementar a renda, ser um ganho, começamos a modificar, tirar essas punições, hoje não existe mais nada disso e foi fruto de um trabalho que a gente fez, a gente participou e começou a ser mais incisivo, na própria PLR, na convivência mesmo, trouxemos outros aspectos para dentro da PLR para poder melhorar o setor de trabalho, apesar de historicamente o Sindicato ter um visão contrária a PLR, mas a gente sabia que era possível transformar e conseguimos. Participei durante 10 anos, hoje não participo mais como eleito, mas penso que devemos abrir espaço, porque vamos passar, então o que me dispus a fazer, abri espaço para os meus companheiros mais novos participarem como o Alexandre, o Roni, que participam hoje. Penso que temos que fazer uma transmissão de conhecimento para a categoria estar bem representada no momento que a gente se afastar, saber caminhar.

Como os sindicatos, organizados em coletivos, podem ajudar no combate à discriminação social com negros, mulheres e LGBTQIAP+? 

Olha, esse é um aspecto bem importante, que parece fácil, mas não é. Sabemos que é uma coisa que não tem mais espaço esse tipo de discriminação, mas é muito difícil tu fazer um trabalho sobre isso. Penso que o Sindicato tem que promover mais campanhas de conscientização, nas portas das fábricas mesmo, mostrar que o Sindicato é aberto, é um local de acolhida. Fizemos uma campanha de sócios na Gedore e aconteceu uma situação dessas, uma pessoa veio e falou com a nossa colega, “bah eu queria me associar, mas tem um porém gostaria de colocar minha companheira”… Para só não muda nada, família é família. Ela vai se associar e a companheira tem os mesmos direitos. Isso é muito importante a pessoa ser acolhida com igualdade e respeito. Então, acho que o sindicato tem que promover essas campanhas e mostrar para as pessoas que aqui todos serão acolhidos. Temos que tratar todo mundo igual e dar essa sequência, conversar com nossos filhos, com a sociedade, insistir nas empresas, no local de trabalho para que piadas, por exemplo, que é algo que machuca as pessoas, não sejam utilizadas, e quando ocorrer, que haja o diálogo para evitar. É um pouquinho, tem muito mais coisas que devemos fazer, por isso digo que é complicado, parece que um gesto pequeno não vai mudar nada, mas muda e o Sindicato também já mudou bastante, eu aprendi muito aqui dentro. As vezes algumas coisas passam desapercebidas, não damos bola, mas se nos colocarmos no lugar do outro veremos o quanto é importante o respeito.

Qual a importância dos sindicatos na vida dos trabalhadores? 

O Sindicato é fundamental né? Sem sindicatos seríamos escravos, tanto que as primeiras organizações foram na época da escravidão, os escravos se organizavam. A abolição não veio de graça, movimentos como o do Zumbi dos Palmares foi revolta trabalhista, mesmo sem haver sindicatos, ali já começou uma organização. O sindicato é fundamental, se não tem o trabalhador vira um nada, o sindicato dá toda a sustentação na área jurídica, política, no chão de fábrica e todo o sentido da organização dos trabalhadores passa pelo sindicato.

Você acha que falta consciência de classe para os trabalhadores? 

Muita. Vou dizer que eu realmente comecei a ter consciência de classe quando vim para o Sindicato por causa dos cursos que a gente faz, vai abrindo a mente da gente, coisa que achávamos banais, vamos percebendo que há manipulação, um exemplo é chamar os trabalhadores de colaboradores, aí já começa uma manipulação, mas tu estás dentro da fábrica e não se dá conta, mas a empresa vai tomando conta da tua cabeça, vai te moldando, vai impor o sistema dela. Tu sai de empresa e fica com a marca, é o fulano da Stihl, o fulano da Rex, da Gedore… Vamos perdendo a nossa identidade. Meu sonho é que para cada trabalhador tivéssemos uma hora de formação para ver realmente o que acontece no local que ele pertence, até isso, é uma falta de lugar de pertencer, o trabalhador não se enxerga pertencente a uma classe. E essa consciência mudaria não só o sindicato, mas a sociedade como um todo.

Qual a tua avaliação dos ataques que a classe trabalhadora tem sofrido desde o golpe de 2016. Como as reformas trabalhistas e da previdência?  

Foi uma das coisas mais terríveis que aconteceu com a classe trabalhadora. O que acontece é que estamos pegando uma geração, que nem a minha, que estão perdendo direitos conquistados nos tempos dos nossos avôs, que lutaram muito por jornada de trabalho, 13º salário, férias, por ser reconhecido o acidente de trabalho e hoje isto está se perdendo. E a nossa geração é a responsável por isso, porque nos acomodamos, então quem teve esse direito e está saindo para se aposentar não lutou para manter, não vai passar isso para os jovens. A geração nova, que está entrando agora no mercado de trabalho, já está com seus direitos quase todos tolhidos. Então o que vai acontecer, eles vão ter que sentir na pele e terão que fazer tudo de novo, começar do zero, se revoltar, agora eles estão na transição, a nossa geração ainda dá um pouquinho de conforto para os jovens, mas vamos passar e quando não tiver mais a nossa geração, eles terão que começar tudo de novo. Por culpa da nossa geração que não soube fazer o debate e manter os direitos. Hoje já vejo que essa geração nova está sobrecarregada, eles praticamente não tem descanso semanal, trabalham de segunda sábado e no domingo, o patrão quer serão porque tem que entregar peças. Essa revolta, que digo no bom sentido, tem que ter e acho que vai acontecer. Então as reformas foram um desastre total para os trabalhadores.

O movimento sindical, como um todo, está muito desacreditado. Como reverter isso? 

Isso é uma coisa muito difícil. Preferi sempre ficar na base, ficar na empresa porque é lá que acontece tudo, a organização. Como dirigente, a gente precisa dar o exemplo, não ser puxa saco, fazer as coisas certas para se respeitado perante teus colegas e pela empresa para negociar. É uma credibilidade que tu tens que ter perante os trabalhadores e a empresa para avançar nas pautas dos trabalhadores. Quando tu sai, porque tem atividade no Sindicato é importante dar um retorno aos trabalhadores, porque está fazendo, se vai fazer um movimento na rua, explicar as pautas, o porquê das greves e mobilizações. Isso é importante. E as nossas lideranças que aparecem mais também tem que dar exemplo, pois são um espelho para a categoria toda. Tem que saber usar as ferramentas do Sindicato, pois temos sete cidades, quantas pessoas estão te vendo? Temos que ter postura, saber conversar, colocar a opinião com educação. Isso tem que ser resgatado. Sempre respeitando os colegas da fábrica, os trabalhadores que vem até o Sindicato em busca de apoio. Uma coisa que ajudou bastante foi as nossas manifestações aos sábados, porque sempre parávamos nos dias de semana então já fica aquela ideia de que o cara é vagabundo… Então são pequenas coisas, que todos nos dirigentes, independente de estar liberado ou na fábrica, tem que se atentar. Muita coisa poderia ser evitada se ouvíssemos a base.

Na tua opinião, qual o principal desafio do movimento sindical no próximo período? 

É conscientizar a classe trabalhadora, politizar no sentido de saber da importância, dos seus direitos, do seu lugar de pertencimento. Acho que esse é o grande desafio do Sindicato, não é tanto recuperar direitos, não tanto o reajuste, embora também sejam tarefas porque no momento que tu conscientizares, nós vamos fazer a base, ela vai lutar. E que continue sempre se multiplicando, renovando e se inserir no mundo digital do trabalho, mas isso também com conscientização, com o trabalhador sabendo que não está isolado. Acho que o nosso grande desafio é esse, conscientizar a nossa categoria para os desafios que vem pela frente.

E da indústria? Como gerar empregos? 

A indústria é com uma política de desenvolvimento industrial, principalmente com o governo federal que é o motor, tem dinheiro e as condições de fazer essa mudança econômica. Tem que ter vontade política de gerar empregos e depois claro vai passando para o estado e municípios. Mas acho que a grande sacada é mudar a política econômica, investir mais em desenvolvimento e que possa trabalhar de fato os produtos aqui e não só mandar para fora, mas investir nisso.

Como atrair mais sócios para o sindicato? 

Acho que conseguimos atrair mais sócios para Sindicato sendo mais próximos deles e mostrando a nossa importância, conversando mais com eles. Entender o que a nossa categoria está precisando. Mudou muita coisa, tenho um filho de 22 anos que está no mercado de trabalho, a diferença é gritante, é um choque de geração. Então temos que saber como conversar com esse jovem, com a mulheres. Precisamos de mais mulheres na nossa direção e na categoria. Acho que é por aí, precisamos saber onde estamos errando. Precisamos fazer um estudo sério para saber onde estamos errando, se tu perguntar para os dirigentes, nós não sabemos, se não, as coisas já seriam diferentes.

Gostaria de acrescentar alguma coisa? 

Só agradecer a oportunidade que a secretaria de comunicação nos dá de fazer essa entrevista, para a base conhecer um pouquinho da gente, isso é importante. Só agradecer e parabenizar.

Fonte: STIMMMESL

Imagens: Israel Bento Gonçalves

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