“O maior desafio das mulheres sindicalistas é seguir dentro do movimento”, afirma a metalúrgica aposentada, Sirlei de Moura Vieira

Metalúrgica aposentada, Sirlei de Moura Vieira tem 53 anos, de 1992 a 2016 trabalhou na metalurgia e em 2003 ingressou na direção do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de São Leopoldo e Região (STIMMMESL). Casada e mãe de um filho de 23 anos, moradora de São Leopoldo, hoje ela integra o Conselho Fiscal da entidade.

Nesta entrevista de sexta-feira (24), Sirlei lembra a sua trajetória, fala dos desafios e da importância das mulheres ocuparem seus espaços. “O movimento sindical é muito machista, muito mesmo. Depois que tu entra, tu é acolhida, mas, ainda assim, é restrita a tua ação”, afirma. E para ela, esse machismo é reflexo da sociedade. “Você tem que levar com naturalidade e não bater totalmente de frente, pois você é taxada como louca”, acredita.

Confira a íntegra da entrevista:

 

Conte um pouco da sua história? Como entrou no movimento sindical?

Sou natural de Pérola d’Oeste no Paraná, iniciei no magistério, atuei quatro anos e vim embora para cá, onde comecei a trabalhar em metalúrgica, primeiro em Novo Hamburgo, depois de três anos vim para São Leopoldo e trabalhei até 2016, quando me aposentei. Entrei no Sindicato a convite do ex-dirigente Elias, entrei primeiro no movimento de mulheres do PT e ele me convidou pra participar do movimento sindical, por volta de 2003.

 

 

Qual a importância das mulheres ocuparem seus espaços?

É muito grande! Pena que a maioria das mulheres não tem essa consciência de ocuparem seus lugares ou até tem consciência, mas são impedidas pelos maridos por causa da casa, dos filhos, da própria sobrecarga de trabalho que a mulher tem. A maioria das vezes, as mulheres não entram no movimento sindical devido a sobrecarga mesmo, pois não tem tempo.

 

Na tua opinião, qual o principal desafio das mulheres no movimento sindical?

O maior desafio das mulheres sindicalistas é seguir dentro do movimento, se manter dentro. Pois o movimento sindical é muito machista, muito mesmo. Depois que tu entra, tu é acolhida, mas, ainda assim, é restrita a tua ação. Ou não é requisitada, ou não te dão abertura para ti falar, está no movimento e não pode sair para as viagens, pois tem o marido, a casa, os filhos.

 

O chão de fábrica e o movimento sindical é bastante machista. Como as mulheres devem lidar com isso?

Com naturalidade. Pois é natural esse machismo. Se tem machismo dentro de casa, no chão de fábrica, vai ter também nos sindicatos. É um reflexo da sociedade e a sociedade é machista. Você tem que levar com naturalidade e não bater totalmente de frente, pois você é taxada como louca.

 

Como os sindicatos, organizados em coletivos, podem ajudar no combate à discriminação com mulheres, negros e LGBTQIA+?

Sobre os coletivos, os sindicatos ficam devendo nisso ainda, pois tem um largo espaço nestes movimentos. Deveria ter mais campanhas de associação para as mulheres, negros e LGBTQIA+ e explicar que a força do coletivo é garantido pelos sindicatos e não pelo patrão. Tem que convencer a todos de que o trabalhador tens que ser sócio para garantir os teus direitos, o patrão não vai te dar nada, ele não é bonzinho, ele só faz o que tem que fazer.

 

 

Qual a tua avaliação dos ataques que a classe trabalhadora tem sofrido desde o golpe de 2016. Como as reformas trabalhistas e da previdência?

As piores possíveis e ainda tem muita coisa a caminho. Por exemplo, está sendo cogitada a redução do Fundo de Garantia. Com tudo que já tiraram, com tudo que já se perdeu ainda tem mais a caminho, mais projetos para a retirada de direitos.

 

O movimento sindical, como um todo, está muito desacreditado. Como reverter isso?

Eu acredito que agora, o movimento sindical está retomando alguma credibilidade que foi perdida. Pois a partir do golpe, o Sindicato começou a bater em cima, a explicar que viria como uma avalanche de retirada de direitos e as pessoas não acreditaram e agora o trabalhador está sentindo no bolso essa retirada de direitos, a retirada da previdência social, a dificuldade que é marcar uma perícia, eles estão dificultando ao máximo a nossa vida.

 

Qual o principal desafio do movimento sindical no próximo período?

Eleger um governo de esquerda. Porque se não eleger um governo de esquerda que pense no trabalhador, nós estamos perdidos. Inclusive o movimento sindical corre o risco de ser varrido da história.

 

Hoje aposentada, o que você diria para uma jovem trabalhadora que está iniciando no mercado de trabalho?

Que não espere a aposentadoria, do jeito que está… Pois se não for feito nada de mudança que revogue a reforma da previdência, como será a vida aos 50, 60 anos? Não dará para se aposentar e será velho demais para trabalhar. Teremos um contingente de pessoas mais velhas, daqui um tempo, que não terão remuneração.

 

O que os sindicatos podem fazer para conquistar mais sócios, principalmente as mulheres?

Deveria dar mais ênfase naquilo que a Convenção Coletiva de Trabalho garante. Muitos acham que tudo aquilo que consta no acordo coletivo veio de graça, mas não, foi com muita luta do Sindicato que faz todo um trabalho e negocia, todos os anos. Todas as cláusulas sociais que garantem direitos aos trabalhadores são garantia e fruto da luta do Sindicato.

 

 

Gostaria de acrescentar algo?

Eu mesmo aposentada voltei para a direção do STIMMMESL, eu acredito no movimento sindical e que é a única ferramenta que defende os trabalhadores.

 

Fonte: STIMMMESL

Imagens: Israel Bento Gonçalves (STIMMMESL)

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