“Vencer o patriarcado requer pensar em ações afirmativas de espaço de escuta aos anseios das mulheres”, afirma a vice-presidente da FTM-RS, Eliane Morfan

Com uma longa militância no movimento sindical e social, a metalúrgica Eliane Morfan está ocupando a vaga de vice-presidenta, Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos do RS (FTM-RS), representando trabalhadoras de todo o estado, desde 2021. “É uma honra e ao mesmo tempo uma responsabilidade” garante ela. “Reconhecer a importância de uma trabalhadora na vice-presidência da FTM-RS pressupõe planejar ações efetivas contra discriminação da mulher.”

Mãe de três filhos e moradora de Montenegro, Eliane é filha de agricultores e até os 21 anos militou no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Na entrevista desta sexta-feira (22), ela recorda sua trajetória, fala da conjuntura, sobre os desafios das mulheres sindicalistas e do movimento sindical como um todo. “Vencer o patriarcado requer pensar em ações afirmativas de espaço de escuta aos anseios das mulheres”, declara.

Confira a íntegra da entrevista:

Conte um pouco da sua história? Como entrou no movimento sindical?

Sou Eliane Morfan, mãe de três filhos, natural de Três Passos, filha dos agricultores Cenira Morfan e Bernardo Miguel Morfan, conhecido por ser um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Por conta disso, cresci militando no MST, onde foi minha maior trajetória de conhecimento e fortalecimento de classe. Militei até meus 21 anos e em 1998 precisei trabalhar na indústria para ajudar no sustento da família, aí começa minha trajetória dentro da indústria. Trabalhei num hospital por quase 10 anos, nesse período entramos em greve por melhores condições de trabalho, pagamento de salários atrasados, aparelho em condições precários… Numa greve que durou 16 dias e foi o começo de uma grande campanha dos trabalhadores e comunidade para o hospital ser 100% SUS, pois era um hospital filantrópico (Alemanha) e depois de uma longa jornada, hoje temos esse hospital que atende toda região do Vale do Caí. Então, em 2007 decidi sair do hospital e arrumar trabalho em outra empresa, pois precisei estudar e me adequar com meu trabalho e estudo. Em 2009, comecei então trabalhar na empresa Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) onde trabalho até hoje. Logo depois que entrei na empresa fui convidada a compor na direção do Sindicato dos Químicos de Montenegro, tive três mandatos, dois como secretária jurídica, na executiva do Sindicato e no último mandato fiquei vice-presidenta, sempre atuei na construção dos acordos da Convenção Coletiva de Trabalho, e acordos coletivos em favor da classe trabalhadora, fiquei na direção do Sindicato dos Químicos até 2017, ano em que a empresa onde eu trabalho mudou o enquadramento sindical que era representado pelo ramo químico e passou a ser metalúrgico. Minha vida segue sempre militando e atuando pelos direitos dos trabalhadores, tendo em vista, fortalecer a luta das mulheres que tem necessidade de organização classista. Em 20 julho de 2021 foi a posse da nova direção Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos do RS, onde fui empossada vice-presidenta e reafirmo meu compromisso, junto com as trabalhadoras, de estar fortalecidas na luta das mulheres metalúrgicas e as demais, articulando as reivindicações das mulheres e a luta pela superação de todas as formas de opressões. Não há outra forma de barrar tamanho ataque a não ser com a unidade classista do conjunto dos trabalhadores e trabalhadoras. Os ataques que temos sofrendo nos mostra claramente a necessidade de um movimento unitário e de conjunto de resistência.

Qual a importância das mulheres ocuparem seus espaços?

A importância das mulheres ocuparem seus espaços pressupõe estar na luta para que não haja mais injustiças de gênero, raça e classe. De que não devemos aceitar posturas machistas que tentam impedir mulheres de serem reconhecidas nos seus locais de trabalho. De chamar a atenção de que o cuidar de filhos e casa não cabe ao papel do feminino e sim da divisão dessas tarefas de casa entre homem e mulher. Por isso, lugar de mulher é onde ela quiser estar.

Você está vice-presidente da FTM-RS, como é representar trabalhadoras de todo o estado?

É uma honra e ao mesmo tempo uma responsabilidade. Reconhecer a importância de uma mulher na vice-presidência da FTM-RS pressupõe planejar ações efetivas contra discriminação da mulher. Cuidar para que haja formações potentes nos locais de trabalho. Estar atenta a diversas formas de opressão contra a mulher e oferecer ferramentas de atendimento a qualquer forma de violência, que, porventura, venha a acontecer nos locais de trabalho. Isso requer postura de escuta e acolhimento.

Você vem de uma categoria que as mulheres são minoria e o movimento sindical é muito machista. Como você lida com isso?

Lido de forma a estar atenta a pauta feministas e fazer com que o ambiente sindical seja um espaço de troca de saberes. Uma sociedade machista se vence com conhecimento e a denúncia contra o patriarcado. Não poderia ser diferente no mundo sindical.

Na tua opinião, qual o desafio das mulheres no movimento sindical?

Desafios são muitos, mas acredito de forma segura, de que estamos no caminho certo. É preciso empoderar as mulheres para que elas se reconheçam como vencedoras, como pessoas capazes de contribuir e ser reconhecidas não com flores somente, mas com papéis de liderança, com salários justos e longe de assédios. Portanto, vencer o patriarcado requer pensar em ações afirmativas de espaço de escuta aos anseios das mulheres trabalhadoras, desde uma creche para os filhos até as horas de trabalho.

Como os sindicatos, organizados em coletivos, podem ajudar no combate à discriminação com mulheres, negros e LGBTQIA+?

O combate à qualquer forma de opressão requer ações em conjunto com movimentos sociais contra o racismo, na valorização das minorias como a população LGBTQIA+. Então a pauta não deve se restringir apenas dentro das organizações sindicais. Essas devem estar atentas ao que acontece na sociedade e participar ativamente. Desde o planejando como no apoio logístico.

Qual a tua avaliação dos ataques que a classe trabalhadora tem sofrido desde o golpe de 2016. Como as reformas trabalhistas e da previdência?

Minha avaliação é de que o Brasil anda na contra mão do mundo desde 2016. Por exemplo, na questão da estatização, aqui querem privatizar tudo e lá fora, é o contrário. E esse projeto de destruição do Estado atingiu em cheio a classe trabalhadora, em especial as mulheres, que foram as mais atingidas. As reformas trabalhistas só precarizaram as relações de trabalho. O governo veio com um projeto de destruição da CLT e imposição de uma tal carteira verde amarela que de proteção não tem nada, apenas tornou refém, ainda mais, o trabalhador do seu empregador. E esse mesmo trabalhador sequer tem o direito a uma aposentadoria decente, pois a reforma da Previdência, que de reforma não tem nada, é um projeto de desmonte de uma Previdência solidária ao tornar o trabalhador escravo de um sistema que tem como objeto a defesa de um sistema privado.

O movimento sindical, como um todo, está muito desacreditado. Como reverter isso?

Esse descrédito não acontece por acaso. Vamos lembrar que o sistema capitalista, no qual o trabalhador oferece sua mão de obra em troca de um salário decente está sofrendo mudanças drásticas. Há um movimento liberal de dizer que o trabalhador cresce se ele investir em si mesmo. Porém essa falácia esconde uma realidade que escancara a desigualdade nas oportunidades de acesso ao mercado de trabalho. Em um país de tamanha desigualdade social em que muitos não têm nada e poucos tem tudo é impossível melhorar se não houver investimento em políticas públicas e uma reforma tributária sobre a renda e a propriedade. Penso que o movimento sindical deve se envolver nessas pautas e claro, elegermos representantes no legislativo que defendam a classe trabalhadora.

Na tua opinião, qual o principal desafio do movimento sindical no próximo período?

O principal desafio será fazer com que as forças sociais revoguem a Emenda Constitucional 95. Sentar com a classe política e governo e avaliar o impacto negativo das reformas feitas. Não tem receita pronta. Quanto mais representantes da classe trabalhadora elegermos, mais será possível a discussão. Caso isso não ocorra, dificilmente teremos alguma mudança significativa.

O que fazer para os sindicatos conquistarem mais sócios, principalmente mulheres?

Diante da violência de gênero, penso que pensar pautas que explorem a igualdade de oportunidade baseada no respeito e na competência. Oferecer seminários que discorram sobre assédio moral e sexual. Ter protocolos de denúncias nos locais de trabalho, que incentivem a proteção a vida das mulheres é por demais significativo. Pensar que as mulheres detém uma carga de trabalho pesada (casa, filhos, estudo, entre outros) e precisam ser escutadas.

Fonte: STIMMMESL

Imagens: Israel Bento Gonçalves (STIMMMESL)

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