Ato em defesa da soberania latino-americana reúne manifestantes na Esquina Democrática em Porto Alegre
A Esquina Democrática, no Centro de Porto Alegre, recebeu, na tarde desta quinta-feira (8), o ato em defesa da democracia, da soberania nacional e da autodeterminação dos povos da América Latina. A mobilização teve início por volta das 17h30 e reuniu movimentos populares, organizações sindicais e parlamentares. Diretores do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de São Leopoldo e Região (STIMMMESL) participaram da atividade que marca os três anos da tentativa de golpe de Estado ocorrida em 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes, em Brasília, foram invadidas por grupos extremistas.
Durante a manifestação, os participantes destacaram a importância da responsabilização dos envolvidos e rejeitaram qualquer possibilidade de anistia. Entre as palavras de ordem entoadas ao longo do ato estavam frases como “Sem anistia e sem dosimetria” e “Não vamos negociar nossa soberania”.

Raul Pont, historiador e ex-deputado federal, abriu o ato com uma intervenção voltada à contextualização do atual cenário político da América Latina. Em sua fala inicial, destacou o agravamento das tensões na região, marcado por disputas geopolíticas, ameaças à soberania nacional e recorrentes ataques às instituições democráticas, situando o momento latino-americano em um quadro mais amplo de instabilidade e de ofensiva das forças conservadoras sobre os direitos dos povos.
“A geração de muitos que estão aqui acompanhou tudo o que foi a importância do pós-guerra, a luta pela construção da ONU, a luta pela resolução dos conflitos, pela conversa, pelo diálogo, pela diplomacia, pela racionalidade. Hoje, o imperialismo americano volta, mais uma vez, a expor, de todas as formas, os seus métodos tradicionais. Nós não esquecemos do que foram, ainda nos anos 60, o golpe do Brasil, o golpe do Chile, o golpe da Argentina, as invasões na América Latina e no Caribe, todas elas patrocinadas pelo imperialismo americano”, enfatizou.
Representando a Associação Cultural José Martí/RS e o Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado do Rio Grande do Sul (Sindjus), Fabiano Salazar destacou a situação da Venezuela. Em sua fala, destacou a defesa da paz, do diálogo e da soberania entre os povos na América Latina. “É importante, nesse momento, que a gente permaneça atento, vigilante e forte na defesa da Venezuela, na defesa da nossa América Latina e na defesa dos interesses dos brasileiros e das brasileiras, hoje, que a gente tá aqui deslembrando, descomemorando a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Viva a Venezuela! Viva a América Latina livre! Libertem Maduro!”
Manter a memória viva
Amarildo Cenci, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), destacou que o 8 de janeiro não pode ser tratado como um episódio encerrado, mas como parte de um processo contínuo de tentativa de ruptura democrática no Brasil. Segundo ele, o ato reafirma a necessidade de memória, responsabilização e defesa da soberania nacional e latino-americana, reunindo diferentes forças políticas e sociais em uma ampla frente democrática.
“São três anos de tentativa de golpe. Um golpe que continuou e que continua até hoje, quando setores tentam se livrar da responsabilidade pelo que fizeram, por meio da anistia e de questionamentos às dosimetrias. Nós estamos aqui para dizer que esse dia 8 nunca mais será esquecido e não deverá ser esquecido pelo povo brasileiro, em função das experiências que tivemos com as ditaduras, cujas violências foram depois solapadas da história, com o apagamento da verdade e o perdão a quem fez o que fez no passado. Desta vez, é preciso responsabilização, dentro do devido processo legal, em respeito à democracia. Um Estado de direitos tem, sobretudo, o direito de julgar quem atenta contra ele, como foi o caso. Hoje é dia 8, e nesse dia 8 celebramos o veto do presidente Lula à dosimetria. Queremos que esse veto seja mantido e não seja questionado”, destacou Cenci.

Além do contexto nacional, a mobilização também foi impulsionada pela situação política na Venezuela. Durante o ato, organizadores e participantes repudiaram o recente ataque ao país que culminou no sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e da primeira-dama, Cilia Flores, em ofensiva do governo de Donald Trump, dos Estados Unidos.
“Também estamos aqui para denunciar o imperialismo americano, que atentou contra os direitos de um chefe de Estado na Venezuela e tenta tutelar toda a América Latina de acordo com seus interesses. Nós não queremos voltar a ser colônia de ninguém. Assim como os demais países latino-americanos, somos um povo livre. Precisamos, nós, latino-americanos, nos unir para que não sejamos um protetorado de um império em decadência. Por isso dizemos: fora imperialistas, tirem as garras da Venezuela e da América Latina”, acrescentou o presidente da CUT.
Para Edegar Pretto, presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o “atentado militar dos Estados Unidos contra a Venezuela” foi mais um exemplo de que “eles odeiam a soberania” dos países, especialmente da América Latina. “América Latina vai continuar sob o comando da democracia de cada um dos seus países. Mas é muito importante que a gente compreenda o que a gente vê de triste: a extrema direita brasileira bater palmas outra vez para os Estados Unidos. Aliás, eles se ajoelham, eles são capachos, eles aplaudem os Estados Unidos em qualquer circunstância”, enfatizou.
Latino-americanos unidos
Segundo os manifestantes, o episódio representa mais um exemplo de violação da soberania dos países latino-americanos e de tentativas de interferência externa nos processos políticos.
Integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no RS, Lara Rodrigues, pontuou que o ato é nacional e um marco na luta pela democracia. “Esse dia é o contraponto aos ataques golpistas que o Brasil sofreu em janeiro de 2023. Então desde 2023, os movimentos do campo popular, partidos de esquerda, têm se reunido para a defesa da democracia. E hoje, nesse 8 de janeiro de 2026, nós também viemos às ruas para denunciar o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e o avanço do imperialismo na América Latina. Nós estamos aqui defendendo a democracia e a soberania dos povos na América Latina. Os movimentos, cada um tem as suas pautas, mas o que nos unifica nesse momento é a defesa da democracia. Nós podemos divergir em alguns pontos, em algum momento, mas nenhum dos movimentos, dos partidos que estão aqui hoje, têm alguma dúvida sobre a importância da democracia no nosso país”, complementou.
Eremi Melo, secretária de mulheres da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil no Rio Grande do Sul (CTB-RS), reforçou a necessidade de solidariedade internacional entre os povos da América Latina e a defesa do direito à autodeterminação, além de alertarem para o avanço de forças autoritárias no continente.
“É importante esse ato aqui, hoje, para demarcar de fato a importância da democracia pela não anistia, para não anistiar esses golpistas, porque mesmo com Bolsonaro preso eles continuam tentando ainda fazer o golpe, mas eu acho que a importância de o Lula ter vetado esse projeto de lei que anistiava os golpistas é importante. A gente tem que fazer uma grande luta para quando voltar pro Congresso, para que isso de fato seja extinto, porque isso é uma grande afronta à democracia. Por isso a gente precisa fazer uma grande frente dos trabalhadores, dos movimentos sociais para derrotar essa gente. Está nas nossas mãos o futuro do nosso país.”
Salete Souza, eleita presidenta da União Brasileira de Mulheres do Rio Grande do Sul (UBM-RS), destacou: “Estamos aqui junto neste ato, nesses três anos onde nós sofremos uma tentativa de golpe no nosso país e nós não vamos tolerar nenhuma tentativa de golpe, nenhum golpista, nenhum canalha vai atentar contra os três poderes. Porque a democracia é soberana e nós queremos um país soberano, democrático, onde as mulheres, as pessoas possam ter segurança. E diante de uma tentativa de golpe, o nosso país se tornou alvo desse governo do Trump e nós não aceitamos. Estamos aqui também em solidariedade à Venezuela, ao povo venezuelano, onde quem mais sofre diante do fronte a uma guerra são as mulheres também. Então nos solidarizamos com as mulheres, com o povo venezuelano e não estamos aceitando essa forma de intervenção”.
Lucas Gertz, que integra a coordenação estadual do Levante da Juventude e do coletivo Mãos Solidárias, chamou a atenção para a importância da responsabilização: “É uma das primeiras vezes que a justiça brasileira consegue dar uma resposta a esses golpistas, que a gente consegue responsabilizar a elite brasileira pelos seus atos, desde a escravidão, desde a ditadura. A gente tem uma grande lacuna, que é justamente não conseguir apontar os nossos culpados, fazer com que eles sejam responsabilizados. Então, essa é a primeira vez que a gente consegue responsabilizar”, celebrou.
A coordenadora-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Niara Dy Luz, alertou para a possibilidade de retorno à Câmara dos Deputados da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da dosimetria, apesar do veto do presidente Lula. “Isso exige pressão popular para que a proposta não avance”, afirmou. “Esse levante popular de resistência que acontece hoje aqui no Brasil também acontece em outros lugares do mundo e principalmente na América Latina. Nós estamos cumprindo o nosso papel aqui com os movimentos sociais”, finalizou a dirigente estudantil.
Em um momento cultural da programação, o ato contou com a participação da bateria do Levante da Juventude e com a apresentação de José Martins, integrante do Grupo Unamérica. Após a concentração e as falas das lideranças, os manifestantes realizaram uma marcha até a Ponte de Pedra.
Fonte: Brasil de Fato RS
Fotos: Renata Machado (STIMMMESL)
