Após depoimento em Curitiba, Lula diz que não quer ser julgado por interpretações: “eu quero ser julgado por provas”

Após cinco horas de depoimento na tarde desta quarta-feira (10) ao juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou indignação às milhares de pessoas que o aguardavam na Praça Santos Andrade, em Curitiba, pela inexistência de provas que sustentem as acusações contra ele.

 

“Esperava que, depois de tanto massacre, eles tivessem o documento que eu comprei, reformei o apartamento, com escritura registrada em cartório. Mas nada, nada. Perguntaram se eu conheço o Vaccari (Neto, ex-tesoureiro do PT), o (Paulo) Okamotto (diretor do Instituto Lula). Lógico que eu conheço e não tenho vergonha dessas pessoas. Não quero ser julgado por interpretações, mas por provas”, disse Lula.

 

A oitiva de hoje é parte das investigações da suposta propriedade de Lula sobre um tríplex no Guarujá, no litoral paulista, que teria sido reformado e repassado ao ex-presidente pela construtora OAS de forma ilegal. “Eu não seria digno de vocês, do carinho que vocês estão tendo comigo, se eu tivesse alguma culpa e falando com vocês agora. Eu virei em quantas audiências for necessária. Prestarei quantos depoimentos forem necessários. Se tem algum brasileiro, ser humano, em busca da verdade, sou eu”, disse o ex-presidente.

 

 

Lula destacou o massacre que vem sofrendo por setores da imprensa e do judiciário, mas afirmou que isso só tem deixado ele como mais vontade de concorrer nas eleições de 2018. “Só o Jornal Nacional, em doze meses, publicou 18 horas de matérias negativas contra o Lula. Para que eu seja massacrado antes do dia que vou ser julgado. Quero dizer que estou vivo e estou me preparando para voltar a ser candidato à presidência deste país. Nunca tive tanta vontade de voltar a ser presidente como agora. Vontade de fazer mais e melhor. E provar mais uma vez que, se a elite brasileira não tem competência para consertar esse país, um metalúrgico vai”, afirmou, sendo fortemente aplaudido depois de ser interrompido por gritos de “Lula, guerreiro do povo brasileiro”.

 

O ex-presidente se disse emocionado com a presença de milhares de pessoas, que vieram de várias partes do país para se solidarizar com ele. “Jamais pude imaginar que um ônibus pudesse sair do Acre para prestar solidariedade ao Lula. Se não fossem vocês, eu não suportaria o que eles estão fazendo comigo. Eu disse para eles. Essa era minha consciência. Minha relação com vocês é diferente do que os políticos têm com os eleitores. Eu não tenho relação de candidato e eleitor. A minha relação é de companheiros de projeto de país e construção de sociedade civilizada”, disse Lula, emocionado.

 

O ex-presidente lembrou de sua mulher Marisa Letícia, que morreu em fevereiro deste ano, vítima de um Acidente Vascular Cerebral, seus cinco filhos e oito netos, para ressaltar o carinho que a população que foi até Curitiba estava manifestando por ele. E que permaneceria digno a todos.

 

“Eu só posso dizer uma coisa. Em meu nome, em nome do meu partido, em nome dos movimentos sociais que estão aqui, em nome dos partidos solidários, do movimento sindical: se um dia eu tiver que mentir, eu prefiro que um ônibus me atropele em qualquer rua deste país. Eu jamais poderia mentir para pessoas como vocês que acreditam e me seguem há tanto tempo”, afirmou, em lágrimas.

 

Ele ainda explicou o motivo do pedido feito ao juiz Moro, para que toda a audiência fosse transmitida ao vivo, inclusive com a filmagem do magistrado. “Minha mãe viveu e morreu analfabeta. Ela dizia que conhecemos quando as pessoas estão dizendo a verdade, não pela boca, mas pelos olhos. Por isso, queria que as pessoas vissem os olhos de quem está perguntando e quem está respondendo”, disse.

 

 

Telefonema de Ana Júlia

Antes de encerrar o ato, Lula chamou a estudante secundarista Ana Júlia, que ficou conhecida no ano passado após um discurso na Assembleia Legislativa do Paraná. O ex-presidente se disse emocionado por ter recebido um telefonema dela, dizendo que se filiaria ao PT em resposta às arbitrariedades que estão fazendo contra ele.

 

“Eu não preciso que ela se filie ao PT para eu gostar dela. Eu preciso que ela continue falando o que pensa, lutando pela democracia, continue sendo forte”, afirmou. “Eu não acredito que tô passando por esse momento. É uma honra imensa pra mim estar ao lado de quem mais construiu universidades públicas nesse país. Eu aprendi que é preciso defender a educação do nosso país e é isso que vou seguir fazendo”, disse Ana Júlia.

 

“Golpe atrás de golpe”

Antes de Lula, a presidenta deposta Dilma Rousseff (PT), eleita com 54,5 milhões de votos, fez uma breve fala à multidão, criticando o que chamou de “golpe atrás de golpe”. Ela enumerou todas as fases de um golpe que ainda não acabou. Além do impeachment, ela lembrou da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do teto do investimento com educação e saúde já aprovada, da própria Reforma Trabalhista e da Reforma da Previdência.  ”Nem na ditadura militar ousaram tirar os direitos do trabalhador”, salientou.

 

“Eles (a oposição encabeçada pelo PSDB) perderam por quatro vezes as eleições. E aí perceberam que para fazer o estrago que estão fazendo, tinham de dar um golpe. Mas nós temos uma responsabilidade com a democracia e a democracia exige que não deixemos avançar esses golpes. Principalmente, quando querem inviabilizar as condições de cidadania para que nosso querido presidente Lula possa ser aceito ou não, votado ou não pelo povo brasileiro. Perder eleição não é vergonha, só é vergonha para golpista”, criticou.

 

Ela encerrou sua fala parabenizando os que lá estavam em uma “cerimônia em defesa da democracia” e ressaltando a importância da liderança de Lula para derrotar os retrocessos no país.

 

 

Vem aí nova greve geral

Lideranças de organizações como a CUT, antes das manifestações de Dilma e Lula, apontaram como os golpistas têm aproveitado o período do ilegítimo Michel Temer (PMDB) à frente do país para roubar direitos.

 

“Estão construindo um acordo espúrio de votar no Senado. O mesmo texto que aprovaram na Câmara, ou seja, acabando com o contrato de trabalho, arrebentando a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) também será votado lá. Vamos dar duas respostas: Ocupa Brasília no dia 24 e, se não funcionar, vamos organizar em junho a segundo maior greve geral da história do Brasil”, apontou o presidente nacional da CUT, Vagner Freitas.

 

 

Fonte: CUT-RS com CUT Nacional, Rede Brasil Atual (RBA) e Sul21

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