“O que fortalece a luta é a organização dos trabalhadores”, diz vice-presidente do STIMMMESL, Rogério Cidade

Ex-diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre, o vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Leopoldo e Região (STIMMMESL), Rogério Bandeira Cidade, é trabalhador da Taurus. Em 2016 foi um dos cerca de 900 trabalhadores da empresa que foram transferidos da sede de Porto Alegre para São Leopoldo. Com essa experiência em dois grandes sindicatos gaúchos, Rogério é categórico ao afirmar que “o que fortalece a luta é a organização dos trabalhadores”.

A entrevista desta sexta-feira (24) é com ele. Motociclista, o morador de Gravataí gosta de passar as horas vagas andando de moto com os amigos. Nesta entrevista, Rogério conta como ingressou no movimento sindical, como foi a transferência da Taurus para São Leopoldo, as peculiaridades da luta sindical e a importância do movimento para melhorar a vida dos trabalhadores. “A gente luta para manter direitos, tentar avançar nas conquistas dos trabalhadores, organizar melhor a categoria com o convencimento da importância do Sindicato”, afirma ele.

Confira a íntegra da entrevista:

Conte um pouco da sua história? Como entrou no movimento sindical?

Comecei na Taurus em 1984, no ano de 1986 entrei para a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) e em 1988 já me convidaram para participar do corpo de delegados sindicais. A Taurus tinha comissão de delegado sindical desde 1967 e a comissão tinha os mesmos direitos que dirigentes sindicais, como a estabilidade. Quando falam que São Paulo foi o primeiro lugar a ter comissão de fábrica, não é verdade, a Taurus teve desde 1967 por causa do golpe de 64. Eles produziam armas e passaram a produzir máquinas, fizeram um acordo com os trabalhadores que previa a comissão. Comecei por aí, depois fui entrar no Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre, em 2006, na pasta de Cultura e Lazer, como tinha um bom relacionamento com os trabalhadores, cuidava da colônia de férias, torneios e outras atividades para a categoria.

Você era diretor do STIMEPA como se deu essa transferência para o STIMMMESL?

Até 2016 fui da direção do Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre, quando a Taurus foi transferida para São Leopoldo, permaneci vinculado na direção lá até 2019. No final de 2018 fui convidado a integrar a direção de São Leopoldo, pelo presidente Valmir, que me disse que teria eleição… Eu já era sócio, assim que a Taurus se mudou para cá, me associei.

A luta sindical é unitária, mas quais são as peculiaridades da base aqui de São Leopoldo?

Lá tem os comitês de fábrica e aqui tem os dirigentes dentro da fábrica. Eles são os nossos olhos dentro das fábricas, porque nos estamos aqui dentro do sindicato, liberados. São esses dirigentes que nos passam as informações, são nosso canal com os trabalhadores, então é um trabalho em conjunto. 

Na tua opinião, como os trabalhadores da Taurus (que também foram transferidos para SL) sentiram essa mudança?

No começo foi bem difícil, vieram cerca de 900 trabalhadores. O pessoal que veio da sede de Porto mora perto daquela região e longe de São Leopoldo. A empresa não tinha ônibus, então fizemos diversas lutas dentro da fábrica para garantir a condução, pois havia gente de Alvorada, Viamão, Gravataí, Cachoeirinha, era bem complicado. A Taurus também tava aumentando o complexo aqui, então foram várias adaptações… Hoje tem ônibus, que pega e deixa o pessoal próximo de onde era a Taurus, ali na Assis Brasil. 

Qual a tua avaliação dos ataques que a classe trabalhadora tem sofrido desde o golpe de 2016. Como as reformas trabalhistas e da previdência?

 Foi um ataque muito grande que veio de encontro a nossa luta sindical. Veio para tirar direitos dos trabalhadores e enfraquecer os sindicatos, já tiraram o imposto sindical que matinha as entidades. Estamos nesta luta até hoje, ainda não terminou e não sabemos quando vai terminar com o governo que temos aí, que só retira direitos dos trabalhadores e a nossa luta é para conquistar direitos. Tudo que vem da política desse governo é para retirar e prejudicar os trabalhadores, beneficiando as empresas. Então temos uma luta muito grande, em cada convenção coletiva eles querem tirar mais direitos, a gente tem que lutar para manter o que temos e fica difícil avançar nas conquistas. 

O movimento sindical, como um todo, está muito desacreditado. Como reverter isso?

O movimento sindical ficou desacreditado porque esse governo trabalha para isso, adotam um discurso que sindicato não presta, sempre houve uma campanha muito forte contra o movimento sindical e a com a mídia a favor do governo. O que muda isso? É a presença em porta de fábrica, nossos informativos, a conversa com os trabalhadores. Mas está muito difícil mesmo, precisamos contar com o apoio dos trabalhadores para manter a luta. 

Não só aqui, mas em diversas entidades, é alto o número de oposição. Não tua opinião, falta consciência de classe para os trabalhadores?

Falta consciência de classe sim, é um trabalho que a gente faz para conscientizar os trabalhadores da importância do Sindicato. As empresas infelizmente trabalham contra o Sindicato, estão sempre divulgando que o pessoal tem que fazer oposição, tem empresa que obriga os trabalhadores a fazer oposição, tem gente que chega a qui e nem sabe o motivo, vem porque a empresa manda, botam ônibus, trazem o pessoal de carro. Há uma luta muito grande contra o Sindicato, claro que quanto mais fraco for a entidade sindical, melhor para eles. A gente luta para fortalecer o nosso sindicato. 

Na tua opinião, qual o principal desafio do movimento sindical no próximo período?

A gente luta para manter direitos, tentar avançar nas conquistas dos trabalhadores, organizar melhor a categoria com o convencimento da importância do Sindicato. Muitos só reconhecem isso quando precisa, quando são demitidos e a empresa não paga os direitos corretamente. O desafio hoje é unir os trabalhadores no Sindicato para fortalecer a luta, Sindicato sem apoio dos trabalhadores não é nada, o que fortalece a luta é a organização dos trabalhadores. 

E da indústria? Como gerar empregos?

É muito importante que tenho um planejamento de governo. O governo tem que trabalhar para gerar empregos, formar trabalhadores, facilitar formação. Mas para esse governo, parece que quanto mais desemprego, melhor. Tu diminui salário, não tem disputa, com pleno emprego o trabalhador consegue escolher onde trabalhar. O que acontece hoje, as empesas estão pagando o mínimo, o piso metalúrgico. Em comparação o salário daqui com Porto Alegre, em 2016, o salário lá era em média R$ 2,600,00 e aqui hoje temos uma luta para aumentar o piso que é o mínimo e é inferior a esse valor. E isso acontece porque não tem emprego, não tem programa do governo que incentive o emprego.  

Como atrair mais sócios para o sindicato, principalmente o jovem trabalhador?

Temos feito bastante campanha de sindicalização, marcamos uma grande presença nas portas de fábricas. O Sindicato aqui é combativo, os trabalhadores estão vendo essa combatividade e em cada campanha aumentamos o número de sócios. Para atrair sócios tem que mostrar o trabalho da entidade, muitos vem pensando em benefícios e não em política sindical e com esse enfraquecimento fica difícil, por isso a necessidade do convencimento da importância do movimento sindical.  

Fonte: Renata Machado (STIMMMESL)

Fotos: Israel Bento Gonçalves (STIMMMESL)

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