“Trazer mulheres para dentro do Sindicato é difícil”, afirma a diretora do STIMMMESL, Simone Peixoto 

Simone Ribeiro Peixoto tem 48 anos, é metalúrgica, sindicalista e moradora de São Leopoldo. É também mãe da Mariana, de 18 anos, de quem fala com um sorriso no rosto. “Minha filha tem consciência de classe”, se orgulha. Antes de compor a direção do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de São Leopoldo e Região (STIMMMESL), ela integrou CIPAS e comissões de negociação de PLR, “por ser um pouco metida e conversar com todo mundo”.

Na entrevista desta sexta (8), Simone fala sobre como enfrenta o machismo no chão de fábrica e no movimento sindical. Aborda também a tarefa árdua que é trazer mulheres para dentro da entidade e os desafios para o próximo período. “Hoje, aqui no Sindicato só temos duas mulheres. São duplas, triplas jornadas. As mulheres chegam em casa tem que cuidar da casa, dos filhos, muitas ainda estudam e ter mais esse compromisso fica difícil”, diz ela.

Confira a entrevista:

 

Conte um pouco da sua história? Como entrou no movimento sindical? 

Eu trabalho no ramo metalúrgico desde 2006. Fiz parte da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) na empresa que trabalhava, a Taurus. E sempre quando tinha algum problema eu entrava em contato com o Sindicato porque era sócia. O presidente, na época, me fez um convite pra entrar na chapa que disputaria a direção e eu não quis, ficou para a próxima… Só que o Sindicato foi fazer uma assembleia na fábrica e eu estava bem na frente ouvindo o Sindicato falar, a gerência da empresa foi fotografar e eu sai na foto, no outro dia fui desligada da empresa. Fiquei um tempo procurando vaga no ramo metalúrgico porque é um dos ramos que paga melhor e peguei na empresa que estou hoje, a Delga e ali também entre na CIPA, por ser um pouco metida e conversar com todo mundo. Os sindicalistas da empresa me convidaram pra fazer parte da comissão de negociação da PLR da empresa em 2016, teve votação para escolher os representantes, fui uma das mais votadas e participei da comissão. Foi neste ano que conseguimos um avanço bem grande e eles gostaram da minha participação, me convidaram para participar no outro ano, mas aí eu preferi não participar, pois estava com problemas com a filha em casa. No outro ano novamente, me convidaram aí participei, fui a mais votada para a comissão de novo e aí sim, teria eleições no Sindicato, me convidaram para entrar e dessa vez, aceitei.

 

 

Qual a importância das mulheres ocuparem seus espaços? 

A mulher tem que ser mais valorizada e ocupar os espaços que estão sendo abertos para nós, é uma grande vitória. O empoderamento feminino, como a gente fala, porque vivemos numa sociedade machista e patriarcal, estamos com esse desgoverno também, totalmente machista que não apoia as mulheres em nada. Onde tiver uma chance e uma mulher conseguir tomar um lugar de destaque, ela tem que ir. Uma tem que ajudar a outra, como falamos, uma sobe e puxa a outra. Mas é bem difícil, temos apoio das mulheres em si. Os homens são poucos os que apoiam para tu conseguir fazer algum trabalho, alguma coisa.

 

O chão de fábrica e o movimento sindical é bastante machista. Como você lida com isso? 

Tem que ter muito jogo de cintura. Na empresa onde trabalho, tínhamos um gerente de produção que era totalmente machista. Era uma briga. Ele foi machista e estúpido comigo uma vez, os guris do Sindicato deram uma amenizada e ele não fez mais isso. Ele trabalhava com uma pessoa do PCP na sala, era mulher, ele deu opção pra ela de trocar de turno ou ia para a tarde ou noite, pois não queria trabalhar com ela. Além de ser mulher, é negra. Ela foi para a noite e ficou um ano e pouco, quando acabou o turno da noite e tiveram que demitir o pessoal, ela foi uma das primeiras que ele mandou embora.

 

Na tua opinião, qual o principal desafio das mulheres no movimento sindical? 

Enfrentar o machismo dos próprios colegas do Sindicato que te ouvem, mas não te apoiam e tentar convencer as trabalhadoras da categoria a entrarem para o Sindicato. Não a serem sindicalistas, mas se associarem. Se tu conseguir fazer isso já é uma grande vitória, trazer mulheres para dentro do Sindicato é difícil.

 

A que se deve essa dificuldade? As duplas, triplas jornadas das mulheres? Ao fato do Sindicato ser mais um compromisso? Ao machismo? Olhar para a direção do Sindicato e não se sentir representada? 

Um pouco é isso. Elas olham e só tem homens. Hoje, aqui no Sindicato só temos duas mulheres. É como tu falou também, são duplas, triplas jornadas. As mulheres chegam em casa tem que cuidar da casa, dos filhos, muitas ainda estudam e ter mais esse compromisso fica difícil. Se tu faz uma assembleia, uma atividade aqui são poucas as que vem porque elas já estão cansadas, trabalharam o dia inteiro, não tem disposição para vir. Eu mesmo, venho porque sou da direção, chego em casa, tomo um banho, coloco meu pijama e tu não me tira mais de dentro de casa. Se tenho que fazer alguma coisa faço tudo antes, porque depois não faço mais nada. E tiro por mim o que as outras mulheres passam também. Elas estão cansadas.

 

 

Qual a tua avaliação dos ataques que a classe trabalhadora tem sofrido desde o golpe de 2016. Como as reformas trabalhistas e da previdência? 

O problema, não só dos trabalhadores, mas da população inteira é que a gente não tem conhecimento de classe. Se tem um trabalhador que ganha um pouquinho mais ele não quer lutar por direitos. Não temos consciência de classe e não adiantar conversar, ir para a porta de fábrica, fazer assembleia, muitos não prestam atenção no que o Sindicato fala. Temos que nos organizar e fazer alguma outra coisa para chamar atenção e explicar para desenvolver essa consciência nos trabalhadores, da importância de se sindicalizar de ir para a luta conseguir os direitos, não perder direitos conquistados.

 

O movimento sindical, como um todo, está muito desacreditado. Como reverter isso? 

Como disse o Lula, num vídeo da CUT, a gente que ir para a base, para as portas de fábricas, conversar com os trabalhadores, mostrar a importância do sindicalismo, que o Sindicato está fazendo as coisas. E agora como temos as mídias sociais do nosso lado, que todo mundo entra, isso é mais fácil de mostrar. E é o que o Sindicato está fazendo agora, todo evento que tem está sendo mostrado nas redes sociais, os trabalhadores estão vendo que o Sindicato não está parado, está se movimentando. Acho que isso pode atrair os trabalhadores para o nosso lado.

 

Não só aqui, mas em diversas entidades, é alto o número de oposição. Não tua opinião, falta consciência de classe para os trabalhadores? 

Sim, eu acho. E tem muito trabalhadores que ganham só o salário base, então qualquer R$ 10,00, R$ 20,00 a menos, vai fazer falta. E isso de explicar para o trabalhador a importância do Sindicato, a gente deveria fazer o ano inteiro, não só na época que fazemos dos acordos coletivos. Todo ano ir conversando, indo nas fábricas, aproveitar as mídias sociais.

 

Na tua opinião, qual o principal desafio do movimento sindical no próximo período? 

Os trabalhadores dizem que o Sindicato virou política. Mas a gente tem que explicar para eles que o Sindicato anda junto com a política e com os movimentos sociais também. É ali que são construídos os direitos. Então devemos conscientizar as pessoas desse próximo período que vamos passar para eleger os candidatos que estão a favor do povo e dos trabalhadores e não os que estão do lado dos patrões como os que foram eleitos, por isso essa retirada de direitos estrondosa.

 

 

E da indústria? Como gerar empregos? 

Aqui na nossa cidade até que não teve tanto desemprego. Acho até que foi um dos municípios que mais avançou, que mais contratou. Mas a política dos governos deveria dar algum incentivo para as empresas, poderia estar gerando mais empregos. Agora, com a pandemia, a fábrica que eu trabalho fornece peça para uma empresa automotiva e ficamos quase cinco meses parados por falta de um componente eletrônico que é importado da China, sendo que esses componentes poderiam ser fabricados no Brasil, não teria essa espera. E tinha, ouvi numa reunião, uma empresa que projetava esses itens em Porto Alegre e acabou sendo desativada. Olha só, aqui no RS mesmo tínhamos uma empresa que poderia ter suprido todo esse mercado nacional, que ficou parado e estagnado porque o material vinha de fora.

 

O que fazer para ter mais sócios, principalmente mulheres? 

O principal seria ter atividades que atraíssem os trabalhadores, homens, mulheres, o jovem também para dentro do Sindicato, trazer a comunidade para esse espaço. A gente conversa na direção, pensa em fazer mais ainda não conseguimos realizar. Estou aproveitando os materiais que o Sindicato tem feito para as redes sociais e mando para uma lista de transmissão com os contatos que tenho da empresa que trabalho e de outras também, tudo que é postado eu repasso lá e tenho tido bastante retorno, pessoal tá vendo que o Sindicato está mudando e investindo nisso. Só que não são todos diretores que estão aproveitando a oportunidade e fazendo o mesmo. Na sexta-feira, é postado uma dica de cinema do Zé Marreta, eu mando e vem retorno, pessoal questionando se vi, se é bom… Isso aproxima e pode trazer sócios para o Sindicato.

 

Gostaria de acrescentar algo? 

O Sindicato está aí para lutar pelos diretos dos trabalhadores e trabalhadoras. Estamos aproveitando as mídias sociais para se aproximar da categoria, me comunico com bastante gente e tenho retorno. Acho que assim conseguimos fazer um bom trabalho e fortalecer o Sindicato.

 

 

Fonte: STIMMMESL

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

três × três =

Whatsapp