“Se o sindicato deixa de existir, os direitos acabam”, afirma o diretor do STIMMMESL, Aldonei Severo 

Natural de Sobradinho, Aldonei Severo é filho de metalúrgico e atualmente é diretor liberado pela Stihl. Morador de Sapucaia do Sul, casado e pai de um menino de 3 anos, ele está indo para o terceiro mandato como dirigente sindical e destaca a importância do movimento sindical para a garantia de direitos e para a construção de um futuro digno. “É muito importante trazer o trabalhador para dentro do sindicato mostrar o que é a luta para eles perceberem o quanto o sindicato faz por eles. Se o sindicato deixa de existir, os direitos acabam.”

Nesta entrevista de sexta-feira (28), Aldonei defende que todo diretor deveria, ao menos durante a gestão, ficar seis meses liberado atuando dentro do sindicato para ampliar a visão e auxiliar ainda mais os trabalhadores dentro das fábricas. “Se todos conhecessem o trabalho do Sindicato, muitos seriam sócios por saberem que estão ajudando um amigo, um vizinho que é metalúrgico também”, garante.

 

Confira a íntegra da entrevista:

 

Conte um pouco da sua história. Como entrou no movimento sindical? 

Vim do interior muito pequeno, meu pai era metalúrgico da Gerdau e lembro que ele vinha para casa falando das paralisações que aconteciam na fábrica, contava sobre o sindicato e relatava uma certa indignação com os colegas que queriam entrar para trabalhar e não ouviam os sindicalistas. Ele falava para mim que se o sindicato estava lá, o mínimo que os trabalhadores tinham que fazer era ouvir, pois o sindicato estava lutando por algum direito, alguma melhoria e naquela época havia muitos acidentes. Então eu já vinha com essa ideia de sindicato desde criança. Entrei para o ramo metalúrgico e não tive tanto acesso ao Sindicato, passei a conhecer mais através do colega Cristiano, eu já era cipeiro e ele me trouxe aqui para conhecer a estrutura e numa dessas vezes o Valmir, que hoje é o atual presidente, me convidou para fazer parte da direção, pois já vinha participando da CIPA, tinha experiência em diversas metalúrgicas, algum conhecimento, ele perguntou se eu não me interessava e como já tinha aquela memória afetiva do meu pai falando do sindicato, aceitei o convite e estou até hoje, entrando na terceira gestão.

 

 

Você é trabalhador de uma multinacional e é dirigente sindical liberado. A responsabilidade é maior? 

Não diria maior, mas temos uma responsabilidade grande sim, pois não estamos dentro da fábrica e ficamos em contato com problemas no âmbito geral. Inclusive, sou uma pessoa que sempre defendi, desde que vim para cá, que todo diretor deveria, ao menos durante a gestão, ficar seis meses liberado atuando dentro do sindicato. Acho que abre muito o campo de visão do diretor dentro da fábrica. Hoje em dia, eu retornando para a empresa, a visão que tinha quando era apenas diretor de base, dentro da Stihl, mudou muito. Acho que seria muito importante ter um programa desse tipo da direção ou da CUT, para os diretores ficarem um período na sede, vendo o que acontece em outras empresas, que são problemas diferentes da empresa onde trabalhamos e isso muda muito a nossa forma de ver a realidade, por mais que achamos que não, estamos condicionados a empresa que trabalhamos e aqui a gente vê o quanto os trabalhadores sofrem ao redor das empresas maiores, o quanto a empresa que tu trabalha também afeta as empresas e os trabalhadores na volta. E dentro da empresa tu não tem consciência disso. Então, o diretor liberado tem uma responsabilidade maior porque tem que dar o apoio aos diretores que estão dentro da empresa. Tu faz o teu trabalho para os trabalhadores das médias, pequenas empresas, muitas vezes até o autônomo que vem e pede ajuda, mas não podemos esquecer nunca da nossa empresa, da nossa base porque, se não, tu deixa de conhecer o trabalhador que está lá dentro e o trabalhador não te conhecendo, não vai trazer os problemas. Então tens que estar sempre focado lá, assim como está nas outras empresas. Isso aumenta a responsabilidade, mas ainda assim, defendo que cada dirigente deveria ficar um período liberado para aprender, para ir para a rua, conhecer mais empresas. Já vi trabalhador chorar na minha frente porque sofria assédio dentro da empresa, que era pequena, é só tinha o Sindicato para recorrer, isso numa empresa grande tu não vê.

 

Qual a importância dos colegas que estão na fábrica terem um dirigente atuando dentro do Sindicato? 

Acho que para o colega que está dentro da fábrica é de suma importância ter alguns colegas fora porque quem está fora consegue te dar apoio. Por exemplo, tu tens problemas jurídicos, de leis e tu não sabe, porque está dentro da fábrica, mas tu tens o contato do colega liberado que vai te dar o respaldo. Quando estava na base, muitas vezes ligava para o Gerson ou para o Valmir e dizia, estou com tal problema, tal situação e não sei o que fazer e é graças a esses colegas do lado de fora que conseguia dar um respaldo dentro da empresa. Agora, quem está fora não pode se omitir de ajudar quem tá dentro da base.

 

A atual direção está no final do mandato, como foi essa experiência pra ti? 

O último mandando foi atípico. Além de problemas pessoais de saúde, fui diretamente afetado pela pandemia, perdi meu pai e uma prima que tinha comorbidades e morreu pouco antes da liberação das vacinas. Foi um mandato muito difícil também pela conjuntura, viemos de lutas de conquistas, de lutar por direitos. Hoje não conquistamos mais direitos, trabalhamos para não perdê-los. Esse último mandato foi para não perder direitos, a patronal bateu direto em cima do Sindicato e aproveitou até quando o presidente esteve doente para atacar o STIMMMESL. Então foi um mandato bem atípico, de muita luta e por mais que não houvesse conquistas, teve muita luta para não perder direitos e para não destruírem o Sindicato totalmente. Pois se não fosse a luta de todos os dirigentes, não sei se estaríamos aqui.

 

Qual a importância dos sindicatos na vida dos trabalhadores? 

Acho que o sindicato é braço mais forte do trabalhador. Se não tem sindicato, como em algumas cidades que o movimento sindical não é atuante, porque as vezes ligam para cá, pedindo ajuda, percebemos como o trabalhador sofre. O sindicato é de suma importância para os trabalhadores, uma pena que a classe não vê isso e os trabalhadores que estão ao lado do sindicato e porque sofreram e então vieram atrás da entidade, viram a importância e a luta que é feita. É muito importante trazer o trabalhador para dentro do sindicato mostrar o que é a luta para eles perceberem o quanto o sindicato faz por eles. Se o sindicato deixa de existir, os direitos acabam.

 

Qual a tua avaliação dos ataques que a classe trabalhadora tem sofrido desde o golpe de 2016. Como as reformas trabalhistas e da previdência? 

Tínhamos uma situação socioeconômica estável, reclamavam muito da Dilma, que tinha problemas sim, mas havia pouco desemprego, o Sindicato conseguia atuar… De uma hora para outra, teve o golpe e a reforma trabalhista, que contou com apoio de alguns trabalhadores, o que é mais triste ainda. A taxa de desemprego só aumentou, hoje o emprego informal é algo comum e penso que esses ataques continuarão acontecendo no futuro. Depois da reforma trabalhista houve um desmembramento do serviço formal impressionante e tiraram muito poder dos sindicatos, muitos acordos que não podiam ser feitos, agora são feitos e os trabalhadores não tem para onde correr. A reforma trabalhista atingiu em cheio o trabalhador, os sindicatos que perderam força sim, mas não abaixaram a cabeça e continuaram lutando para reverter um pouco dessa reforma que ocorreu para o rico ficar mais rico, o pobre mais pobre e ainda agradecer o rico. Outro dia, vi um vídeo de um senhor que dizia que estamos agradecendo pelas muletas, dizia que o trabalhador tem as pernas quebradas pelo empresário e agradece as muletas que o mesmo dá. E isso que acontece com a reforma trabalhista.  E com a reforma da previdência, é só agora que o pessoal está se dando conta que não vão se aposentar.

 

 

O movimento sindical, como um todo, está muito desacreditado. Como reverter isso? 

Trabalhar muito e trazer o jovem para dentro do sindicato. Hoje, os jovens estão se formando no Sistema S e lá dentro estão dizendo que o sindicato é ruim, que não ter direitos é bom e tem muito jovem que acredita nisso. Muitos jovens pensam que eles tem que trabalhar e produzir ao máximo, sem se dar conta que o patrão está cada vez mais rico e achando bom. Então, para reverter isso, o Sindicato tem que continuar atuando da forma que atua, sabendo que teremos anos bem difíceis pela frente. Acho que se o Sindicato não se envolver politicamente agora, se os diretores não quiserem se envolver com política, será muito pior para o trabalho sindical, pois sabemos que o governo atual está aqui para destruir os sindicatos, pois as entidades sindicais para eles não são boas e se não trocarmos os governantes por aqueles que pensem no povo, os sindicatos não conseguem trabalhar. Mas a forma de reverter isso é continuar lutando.

 

Na tua opinião, qual o principal desafio do movimento sindical no próximo período? 

Acho que é um desafio mais político mesmo. Se envolver na luta política esse é o desafio. Além de conseguir colocar na cabeça dos trabalhadores que os direitos que eles tem são direitos conquistados pelo Sindicato e se não estiverem ao lado da entidade vão perder seus direitos. Se tu chegar na porta da fábrica e falar que estão retirando direitos e ainda assim, o trabalhador querer entrar, brigar com o dirigente, só demonstra que ele não quer direitos. Então temos um desafio bem grande e a luta pela defesa de direitos deverá ser ferrenha nos próximos anos, ainda não vamos lutar para conquistar.

 

E da indústria? Como gerar empregos? 

Acho que é investindo no seu trabalhador. Hoje em dia, tem muita empresa que diz que tem vaga, mas não tem trabalhador. Eu me pergunto, as empresas estão formando trabalhadores? Alguns alegam que não, pois formam os trabalhadores e eles não para outros lugares, só que não valorizam o profissional. Para o empresário gerar emprego e mão de obra qualificada, tem que investir no trabalhador. Hoje o Sindicato está abrindo portas para faculdades através dos convênios e muitas empresas fazem isso também. Então para gerar emprego também vai ter que investir em mão de obra qualificada. Se tem uma mão de obra qualificada, as empresas vem para a região.

 

 

Como atrair mais sócios para o sindicato? 

Continuando a luta e divulgando muito o trabalho dos dirigentes sindicais. Temos muitas mídias que falam mal do Sindicato e poucas que divulgam. Trabalhamos bastante e as pessoas precisam saber disso. Por isso a importância também do diretor que está fabrica passar um tempo aqui dentro do sindicato, até para conhecer todo o trabalho e divulgar depois. Se todos conhecessem o trabalho do Sindicato, muitos seriam sócios por saberem que estão ajudando um amigo, um vizinho que é metalúrgico também. Não gosto quando ouço, por exemplo, que o Brasil não tem futuro, porque eu estou fazendo ter futuro, ensinando meu filho a ter respeito e dignidade. Essa é a função do dirigente sindical lutar não só pelo agora, mas pelo futuro do país.

 

 

Fonte: STIMMMESL

Imagens: Israel Bento Gonçalves

 

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