“A formação é a base do movimento sindical”, afirma o secretário de Formação do STIMMMESL, Genilso Vargas da Rosa

Aos 35 anos, o técnico de manutenção Genilso Vargas da Rosa trabalha na Freios Controil desde 2008. Há sete anos no movimento sindical, é o atual secretário de Formação Política, Lazer e Cultura do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de São Leopoldo e Região (STIMMMESL) e acredita na formação como eixo estruturante na trajetória de um dirigente sindical.

Morador de São Leopoldo, solteiro e sem filhos, ele confessa que recusou duas vezes o convite para ingressar no Sindicato “Era jovem e tinha aquela ânsia de crescimento, estava fazendo faculdade e queria crescer dentro da empresa. Com o tempo, vamos amadurecendo e vendo que não é o movimento sindical que vai te tirar oportunidades”, diz. Nesta entrevista de sexta-feira (4), ele fala sobre conjuntura, os desafios do movimento sindical e a dificuldade em atrair os jovens.

 

Confira a íntegra da entrevista:

 

Conte um pouco da sua história. Como entrou no movimento sindical?

Sou filho de dois agricultores que nasceram, se criaram no interior e vieram para morar em São Leopoldo, segundo eles, para poder dar uma educação melhor para os filhos, que era eu e meu irmão. Tinha 7 anos quando mudamos do interior de Pinhal Grande para São Leopoldo e meus pais foram trabalhar na indústria, minha mãe na indústria do calçado e meu pai na Deca. Eu e meu irmão estudamos em colégio público, fiz primeiro grau, segundo grau, terminei meu curso técnico com 19 anos e já trabalhava no ramo metalúrgico, na Hidrotec que foi a primeira empresa metalúrgica que trabalhei, posteriormente vim trabalhar na Freios Controil, que foi onde conheci de fato o mundo sindical. A Hidrotec é uma empresa pequena com 12 trabalhadores então não tinha muito contato com o sindicalismo em si, já a Controil é maior e tive esse contato. Antes de fechar meu primeiro ano de empresa, me associei ao Sindicato por saber da importância que a entidade tem na luta, mesmo meu pai e minha mãe não tendo muita educação e conhecimento sempre frisaram as lutas de classe, a importância de lutar para ter melhorias de vida. Então me associei e passei a conhecer mais o sindicato, fui convidado a me associar pelo Eroni que era um dirigente sindical da fábrica e eu vinha no Sindicato participar das assembleias, jogar bola, passei a ter um conhecimento maior das lutas. No período que já trabalhava na Controil, o Sindicato fez lutas e greves para defender os nossos interesses como classe trabalhadora, e tu viver isso te traz a sensação de ver a importância do Sindicato para o trabalhador, com o passar do tempo acabei me envolvendo mais com questão de CIPA e de negociação de PLR na empresa, comecei a ter uma atuação melhor em relação a lutar também e através disso veio o convite do Eroni para eu fazer parte da direção do Sindicato. As duas primeiras vezes que ele me convidou eu não quis, pois era jovem e tinha aquela ânsia de crescimento, estava fazendo faculdade e queria crescer dentro da empresa. Com o tempo, vamos amadurecendo e vendo que não é o movimento sindical que vai te tirar oportunidades, foi um caminho diferente que eu escolhi, então em 2014 eu aceitei, entrei para a chapa e em 2015 fui eleito, atualmente estou no segundo mandato como dirigente.

 

 

Você está secretário de formação do STIMMMESL. Fale um pouco sobre a importância da formação para os dirigentes sindicais?

E ela que vai dar a estrutura. Vejo e falo por mim mesmo, entrei há pouco tempo, sou jovem no movimento sindical e através da formação que a gente ganha as condições de trabalho, de preparo para exercer essa atividade importante que é ser diretor sindical. Através da formação a gente vai receber estrutura, treinamentos, as informações necessárias, os caminhos que a gente tem que percorrer. A formação é isso, é formar além de um diretor sindical, uma pessoa mais capacitada para dar auxílio, pois antes de ser um diretor sindical, tem que ser uma pessoa melhor, que busque um bem maior, que tenha um senso de coletividade maior. Acho que essa é uma das atividades essenciais da formação porque como indivíduo da sociedade capitalista que vivemos, acabamos tendo uma consciência muito individual e acho que um dos papeis da formação no movimento sindical é isso, fazer essa quebra do pensamento mais individual para o coletivo, pensar nos meus colegas de fábrica, na classe e na sociedade. Então penso que a formação é a base do movimento sindical, é através da formação que a gente evolui no movimento, que consegue atender melhor a nossa categoria, é através da formação que a gente cresce como ser humano, como instituição e como sociedade também. Através de uma boa formação a gente passa a ter boas pessoas, por consequência bons trabalhadores, bons sindicalistas e acho que este é o caminho, através de uma formação melhor, bem organizada para atingir os nossos objetivos.

 

Muitos diretores iniciam suas trajetórias como membros de CIPA ou de comissão de negociação de PLR. Qual a importância dessas ferramentas, tanto para os trabalhadores como para os sindicatos?

São duas ferramentas muito importantes, apesar de ter papeis muito distintos no ambiente de trabalho. A CIPA tem um papel fundamental no dia a dia do trabalhador porque é a CIPA que está lá para pensar no bem estar, na segurança e nas condições de trabalho de cada um, é ela que vai fiscalizar se as condições de segurança estão adequadas. A CIPA tem um papel mais de pensar no bem estar no trabalhador, já o PLR é importante para a questão econômica, é voltado para o interesse da empresa, uma ferramenta criada pela parte do capital para gerar um engajamento maior da classe trabalhadora para produzir. A importância de fazer parte de uma comissão de negociação de PLR é utilizar uma ferramenta criada por eles para ter um ganho maior. Na minha visão, a CIPA pensa no bem estar, na saúde e segurança do trabalhador e a comissão de PLR pensa na questão econômica. E as duas ferramentas são importantes para o movimento sindical pois são modelos de organização dos trabalhadores dentro do ambiente de trabalho, é ali que se estrutura a primeira base de organização, é o primeiro recurso do trabalhador, é ali é o primeiro local de ajuda do trabalhador e a importância é ter uma integração com a empresa. Se tem essa relação que o trabalhador pode buscar a CIPA, a Comissão pode buscar o Sindicato para ter uma atuação mais forte conjunta.

 

Qual a importância do movimento sindical na luta de classes?

É fundamental. O Sindicato além de ser o primeiro recurso do trabalhador tem essa função de organizar a luta de classe, de mostrar para o trabalhador o local dele, onde a gente fica nesta sociedade capitalista. O Sindicato é a organização que o trabalhador tem o seu poder, onde ganha força, pois na luta contra o capital somos mão de obra, apenas mais um e no Sindicato passamos a ter voz. Então o Sindicato é a base da luta de classe, é nele que o trabalhador vai ganhar força e tem a sua representação.

 

 

O movimento sindical, como um todo, está muito desacreditado. Como reverter isso?

Acho que com trabalho, muito trabalho. Existem muitas análises do que gerou esse resultado do sindicalismo estar desacreditado pelo trabalhador e como diretor sindical temos que fazer o nosso trabalho, que ao meu ver é defender, informar e orientar o trabalhador, a falta desses três itens no dia a dia  que gerou esse afastamento, que gerou o trabalhador deixar de acreditar no Sindicato. Partindo do princípio que com essas três funções, o trabalhador vai, num primeiro momento enxergar o Sindicato como um amigo, hoje ele não enxerga isso, muitas vezes ele vem aqui como última opção. Já tentou outras coisas, outras ajudas e realmente não conseguiu. O Sindicato deve ser a primeira opção, mas como vai se tornar a primeira opção? Com o trabalhador sabendo que a hora que ele vir aqui terá ajuda que ele precisa, talvez não o resultado, porque o Sindicato pode não conseguir resultado que ele quer, mas é a ajuda, é saber que o Sindicato fará tudo que puder para ajudá-lo, vai trazer essa reaproximação. Hoje, o trabalhador não se sente representado pelo movimento sindical, não enxerga no sindicato um representante dele e isso por diversas razões, por atitudes erradas de pessoas do movimento sindical, por muitas vezes decisões precipitadas do movimento sindical e até mesmo, por questão de desinformação, de disputa de informação. Então, o trabalhador procurando o Sindicato e o Sindicato fazendo o papel dele que é auxiliar, dar o suporte que o trabalhador precisa, isso gera uma reaproximação. E a reaproximação é lenta, é um trabalho de anos, assim como o que temos hoje é resultado de anos, de talvez, um mau trabalho. Reverter isso vai demorar anos.

 

Na tua opinião, o que afasta os jovens do movimento sindical?

Olha, acho que uma das coisas que afasta o jovem é ele não se enxergar nos sindicatos. Porque se tu for pensar, o jovem é alguém que tem perspectiva de futuro, quer crescer, tem os sonhos dele para realizar e se for pensar nas pautas de lutas do sindicatos, nas convenções coletivas, tu não tem pautas específicas para os jovens, então o jovem não consegue ver o movimento sindical como alguém que está ali para atender ele. Muitas vezes, o jovem está estrando no mercado de trabalho, tem ânsia de crescimento e tem que aceitar coisas que muitas vezes o trabalhador normal não aceitaria e procuraria o Sindicato, já jovem releva por estar começando e querer se manter no emprego. Outro ponto da questão do jovem estar longe do movimento sindical é a referente representação. Como tu vai se aproximar de entidades que não tem jovens nas suas composições de direções? Não tem políticas para jovens, não tem pautas de lutas para a juventude? Parece que não tem uma briga, não tem um interesse de representar os jovens, quando tem interesse tu buscas pautas deles, saber o que querem e acho que isso falta no movimento sindical, tentar entender o que o jovem busca. Falam que o jovem não tem interesse no sindicato, mas o sindicato tem interesse pelo jovem? E não é só em relação aos jovens, mas outras divisões de trabalhadores também, muitas vezes, como movimento sindical não demonstramos interesse de ter eles próximos e acho que tem que partir do movimento sindical e não ao contrário. Acho que é isso, um dos motivos é essa falta de interesse do movimento sindical pelo jovem. Estou no movimento sindical há sete anos e lembro que poucas vezes a gente, efetivamente, discutiu atividades para a juventude, coisas para o trazer os jovens, fazer discurso em porta de fábricas de pautas da juventude. Então acho que sem esses movimentos da nossa parte, a gente não terá o jovem nos procurando.

 

Qual a tua avaliação dos ataques que a classe trabalhadora tem sofrido desde o golpe de 2016. Como as reformas trabalhistas e da previdência?

Desastroso. A gente sofreu, continua sofrendo e infelizmente vamos sofrer muitos anos por essas reformas que causaram prejuízos nas condições e ambientes de trabalho, no futuro do trabalho e no futuro da vida como seres humanos. São reformas que acho não serão revertidas, foram perdas que a classe trabalhadora teve e que não acredito que conseguiremos mudar muitas coisas. Como classe trabalhadora temos ambientes de trabalho precarizados, renda menor, índice de desemprego muito maior, terceirizações, PJs e trabalho informal que cada vez mais prejudicam os trabalhadores e a vida da sociedade em si. Pois quando tem perda de renda, afeta o contexto de toda a sociedade, na indústria, comercio ou qualquer outra fonte de renda formal é dali que sai a maior parte da renda de uma cidade, que gira a economia, quando há perdas nessas áreas, a sociedade em si tem perdas. Então acho que essas reformas geraram perdas gigantescas para a sociedade e não só para os trabalhadores.

 

Qual o principal desafio do movimento sindical no próximo período?

Acho que se reaproximar do trabalhador, entender as expectativas e anseios dessa classe, pois a classe trabalhadora vem numa constante mudança e as necessidades e desejos mudam de período para período. Um desafio do movimento sindical e voltar a entender o que o trabalhador espera tanto do movimento sindical, como do trabalho, da relação que deseja do sindicato com ele. É um desafio a gente reorganizar, reaproximar, pois hoje temos uma classe trabalhadora que é diferente de 10 anos atrás, que é diferente da que tínhamos 20 anos atrás. Hoje há uma gama de trabalhadores muito maior, trabalhadores alfabetizados, outros com ensino médio, os que tem técnico e os com nível superior operando máquinas, são diferentes visões de trabalho dentro do ambiente de fábrica, do ambiente do trabalho, então faz parte  do desafio a gente entender qual é esse novo ambiente, qual é esse novo trabalhador, os anseios dele. É nosso papel entender isso e buscar defender os interesses desse trabalhador.

 

 

E da indústria? Como gerar empregos?

Acho que é algo maior, bem complicado, pois nos últimos 10 nos tivemos uma queda muito grande na questão da indústria no país, que cada vez mais tem uma representação menor no PIB e isso é reflexo de políticas públicas. Como Sindicato, temos que defender a importância da indústria na sociedade para que as pessoas entendam que isso tem que discutido quando falamos de política e de eleições, é a indústria que determina o crescimento de um país. Um país industrializado cresce muito mais que um país produtor de minério, de agricultura, agronegócio, agropecuária. A medida que tem crescimento da indústria, tem crescimento da economia, se a economia cresce tem geração de emprego, se criar emprego aumenta a renda, com renda maior aumenta a qualidade de vida… É a engrenagem funcionando. É papel do movimento sindical mobilizar, fazer com que a sociedade entenda a importância de se discutir a industrialização de um país. A própria questão que vimos agora na pandemia, por não sermos um país industrializado a gente sofreu com falta de material hospitalares, pelo fato da nossa indústria depender da produção industrial de outros países, isso mostra já de cara a importância de termos políticas de industrialização no país.

 

Como atrair mais sócios para o sindicato?

Acho que o primeiro ponto é separar os tipos de sócios que podemos ter. Na minha visão, existe o sócio que se associa por entender a importância do sindicato como instrumento de luta e de defesa da classe dele e esse a gente atrai com trabalho, demonstrando que estamos aqui para atender ele com lutas, com defesas de interesses da classe. E existe o outro que se associa por questões de benefícios, que vai desde uma quadra de esportes, do médico, dentista, salão de festas, piscinas… Para esse, temos que tentar desenvolver mais cosas que possam atrair eles. Mas atrair sócios é bem complicado, para muitos trabalhadores a gente se torna um custo. Quando falamos de trabalhadores que ganham o piso, cerca de R$ 1.500,00 mesmo que seja 1% por cento do salário, isso faz muita diferença. Temos que pensar num contexto maior, fazer com que os trabalhadores entendam a importância do sindicato como um todo, como instrumento de luta e quando passamos a ser instrumento de luta, deixamos de ser um custo e sim uma solução. Uma das principais maneiras de atrair sócios e fazer com que os trabalhadores vejam o Sindicato como uma ferramenta, algo útil para eles, para a vida e o dia a dia deles, como solução e não custo. Além da questão do trabalho, mostrando que sempre que o trabalhador precisar, o Sindicato vai ajudar de uma maneira ou outra.

 

Gostaria de acrescentar alguma coisa?

Acho que uma coisa muito importante na questão da luta sindical é as pessoas que fazem parte do movimento sindical estarem dispostas a darem um algo a mais pelo movimento. Já somos bem desacreditados, o sindicalista por si só já começa no movimento desacreditado. Muitas acham que escolhemos atuar no movimento sindical para não trabalharmos mais, para ter privilégios. Acho que é nosso dever, no momento que escolhemos atuar no movimento sindical, se dedicar para mudar essa imagem. É um papel de todos nós que entramos no movimento sindical mudar essa imagem, mostrar para os trabalhadores que estamos aqui para defender os interesses dele e não os interesses próprios.

 

 

Fonte: STIMMMESL

Imagens: Israel Bento Gonçalves

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