Grito dos Excluídos: Um grito contra o retrocesso, por liberdade e direitos

O 25º Grito dos Excluídos no RS percorreu as ruas da Vila Santo Operário, primeira grande ocupação urbana no Estado

 

Para lembrar dos 40 anos da ocupação Vila Santo Operário, local que é um marco das ocupações urbanas no Rio Grande do Sul, o 25º Grito dos Excluídos, diferente das edições anteriores, esse ano deixou a capital gaúcha e se concentrou no bairro Mathias Velho, em Canoas, região metropolitana de Porto Alegre. Organizada por pastorais sociais católicas e de outras tradições religiosas e por movimentos populares, o ato reuniu, nesse sábado (7), manifestantes que circularam pelas ruas históricas da vila sob o lema “Este sistema não vale!”, entoando gritos contra os retrocessos promovidos pelo atual governo e pelo direito à vida, educação, moradia e pela soberania nacional.

Mesmo com tempo nublado, centena de pessoas, homens, mulheres, lideranças locais e políticas, movimentos sociais e sindicais, trabalhadoras e trabalhadores, crianças e indígenas de cara pintada circularam pelas ruas da vila empunhando cartazes e faixas. O trajeto foi acompanhado por músicas de protesto e populares. Durante o percurso, foram realizadas paradas onde houve manifestação dos presentes. A memória da luta dos pobres, trabalhadores e trabalhadoras na busca por justiça, igualdade, fraternidade e paz para as comunidades foi uma constante no trajeto.

Manifestação percorreu as ruas da vila em diálogo com população

“Gritamos por direito à paz que tenha base na justiça social. Lutamos por trabalho, remuneração adequada e correta. Por direito a uma alimentação saudável, sem agrotóxicos, sem veneno. Lutamos por moradia, pelo direito a uma educação que liberta o ser humano. Não uma educação que mantém a pessoa na ignorância, na submissão”, afirma Roseli Pereira Dias, assessora da Cáritas Brasileira Regional do Rio Grande do Sul e integrante da organização do Grito na região. Para ela, especialmente no contexto atual de desmonte completo, onde a soberania e a democracia estão postas em xeque, o estímulo ao Grito é ainda maior, especialmente nas comunidades.

Alcindo Rodrigues Pereira, representante do movimento comunitário da união de associação de moradores de Canoas, destaca que, além de celebrar os 40 anos da vila, o Grito também lembra o assassinato do metalúrgico Santo Dias da Silva, membro da Pastoral Operária http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/santo-dias/, que foi alvejado pelo polícial militar Herculano Leonel na greve de operários de outubro de 79, em São Paulo. Morador da vila desde o seu surgimento, Alcindo pontua que o sistema não vale porque ele depreda a natureza e só traz desemprego. “Estamos gritando para que o grito desses excluídos venha à tona, para que sejam ouvidos, para que se desperte. Percorremos as ruas da vila para lembrar os seus 40 anos e também dos 40 anos do silenciamento do Santo”, aponta.

Para Carmem Correa, do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos (MTD), sempre houve números altos de fome e miséria, contudo agora chegou-se ao extremo. “Há cada vez mais um crescente número de pessoas nas sinaleiras pedindo trabalho, pedindo moradia. Estamos aqui gritando pelos nossos direitos para que a gente possa sobreviver, para que se tenha uma vida com dignidade, o direito de trabalhar e morar, esse é o nosso grito”.

Dorvalino Cardoso, da etnia kaingang

Na rua Índio Sepé com Índio Gretan, Dorvalino Cardoso, da etnia kaingang, da comunidade indígena de São Leopoldo, lembrou a luta do seu povo. “São dois índios guerreiros que morreram na luta pelos seus direitos. Sepé é guarani e o Gretan é kaingang, sou das duas etnias, minha mãe é guarani e meu pai kaingang, então me sinto orgulhoso. Estou na luta desde os 13 anos, estou com 55 e continuo na luta porque é preciso que nos demos as mãos”. De acordo com ele, a comunidade indígena está sofrendo exclusão em tudo quanto é tipo de política. “Apesar das ameaças da força nacional, estamos aqui no grito dos excluídos para enfrentar todos esses ataques”, frisa.

Michele Ramos, integrante do Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM), lembrou os avanços das mineradoras no Estado, em especial o projeto de mina que pretende se instalar em Guaíba, da mineradora Copelmi. O projeto de exploração de carvão a céu aberto na Região Metropolitana de Porto Alegre ameaça o abastecimento de água e a qualidade de vida de milhões de pessoas. “O capital mineral tem avançado no Estado e vê o território de comunidades tradicionais, de comunidades de agricultores, como possibilidade de avanço para mineração. Então estamos aqui para lutar contra esses projetos que afetam a vida das pessoas”.

Defesa da Soberania Nacional

Segmentos sociais em ataque pelo atual governo uniram forças no ato

Na avaliação da deputada estadual Sofia Cavedon (PT), o sistema que está posto é absolutamente injusto. Recordou do processo de 30 anos de democracia representativa e da conquista de direitos e o acesso à cidadania. “Em 2016 tivemos uma ruptura desse processo, que se seguiu na manipulação da justiça, da polícia, com a prisão do Lula e tirando-o como candidato. Isso fica muito claro com as decisões posteriores que estão tirando direitos de forma brutal do trabalhador, através da reforma trabalhista, da reforma da Previdência e da venda do patrimônio público e da terceirização. Por isso dizemos que esse sistema não vale! Muito menos quando tem a democracia suprimida, e nós queremos mudá-lo. Gritamos porque todos têm direto a ter voz e vez nesse país e poder de decidir”, ressalta.

Seguindo essa linda, o representante do Sindipetro – RS, Edison Terterola, entende que o dia 7 de setembro, que teoricamente é o dia da independência, dever ser o dia do grito pela independência e pela soberania nacional. “Nós petroleiros defendemos que o petróleo Nacional, que petróleo do pré-sal seja revertido para a população brasileira, que a Petrobras seja voltada para a população brasileira, como foi até o ano de 2016. Hoje a Petrobras está sendo destruída, privatizada aos pedaços. Qual a consequência disso? É o aumento do preço dos combustíveis, aumento do gás de cozinha da população de baixa renda, aumento do desemprego e de uma série de problemas sociais causados pela falta de investimento”, ressalta.

De acordo com ele, o governo alega que, com a privatização, o preço do combustível vai diminuir, o que na sua avaliação é uma mentira. “Nós, aqui em Canoas estamos empenhados e conseguimos apoio das autoridades contra a privatização da nossa refinaria porque nós provamos que, com a privatização da Petrobras, quem vai pagar essa conta do aumento do preço do combustível é a população”. A Refinaria Alberto Pasqualini (Refap) fica a alguns quilômetros da vila, separada pela BR 116.

Para Paulo Chitolina, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Canoas e Nova Santa Rita, a luta do grito dos excluídos é uma luta permanente contra o desmonte dos direitos dos trabalhadores, principalmente a partir da reforma trabalhista e, recentemente, da reforma da Previdência. Ele também lembrou os mais de 14 milhões de desempregados no país. “Temos um governo que não investe em educação, um governo que só quer tirar direito dos trabalhadores e não pensa um projeto para criação de empregos. Essa é a nossa luta para que se tenha emprego. A economia só vai girar se tivermos emprego”, salienta.

A alimentação livre de agrotóxico e veneno também esteve presente. Juraci de Oliveira, do Movimento do Trabalhadores Sem Terra (MST), lembrou que o país é campeão no uso e consumo de agrotóxicos na produção agrícola. “Estamos aqui no Grito e queremos manifestar mais uma vez nosso repudio contra o veneno e o agronegócio que mata o povo trabalhador. Precisamos da saúde e não de morte. Precisamos de trabalho, da distribuição de renda, da distribuição da terra, tirar a terra concentrada nas mãos de poucos para podermos ter comida. A cidade não janta se o campo não plantar”, frisa.

Indígenas presentes contra os retrocessos

Ocupação Vila Santo Operário

De acordo com Alcindo, o nascimento da Vila remete ao êxodo rural, onde muitas pessoas vieram para trabalhar na construção civil e, principalmente, no polo petroquímico. Por conta da falta de lugar para morar, as pessoas passaram a ocupar um terreno onde havia uma granja de arroz desativada. “Primeiro, o pessoal se acumulou na favela chamada Guabiju e, no natal de 1979, houve o boom da ocupação. De lá nasceu a Santo Operário, a Vila Natal e a Vila União dos Operários. A ocupação foi realizada por pessoas em busca de uma alternativa de vida. Foi um processo de muita organização comunitária e que gerou muitos frutos e muitas lideranças. Temos muito orgulho desta história”, conta.

Fonte: Brasil de Fato

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