‘Cedo ou tarde, tudo chega no Guaíba’: pesquisa analisa histórico da poluição do lago

Pesquisa desenvolvida na UFRGS observou o histórico da poluição no Guaíba.

Pesquisa desenvolvida na UFRGS observou o histórico da poluição no Guaíba. 

Annie Castro 

Desde 1820 a população de Porto Alegre já percebia a presença de poluição no lago Guaíba e em seus afluentes. No século XX,  o processo de urbanização, fomentado pela criação de indústrias coureiro-calçadistas em cidades do entorno da Capital, colaborou para que o lago fosse cada vez mais poluído. Desde então, as águas do Guaíba seguem recebendo diversos produtos químicos que são liberados pelas indústrias e também por meio de esgotos, da drenagem urbana, que é contaminada pelas sujeira das ruas, e por outros usos.

O histórico da poluição do lago foi o tema de uma pesquisa realizada no programa de Pós-Graduação em Ciência do Solo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Após ter desenvolvido, no Mestrado, estudos sobre a região coureiro-calçadista, o engenheiro ambiental Leonardo Capeleto de Andrade decidiu utilizar o Doutorado para falar sobre poluição na água do Guaíba. “Estava escrevendo um projeto de doutorado para avaliar os sedimentos do Rio dos Sinos, que historicamente foi poluído por indústrias do ramo. Porém, em conversas com meu orientador, nos demos conta de que toda esta água, e a poluição por consequência, do Sinos, fluía para o Lago Guaíba, que é muito menos estudado”, explica Andrade.

Com isso, a pesquisa, que foi orientada pelo professor Flávio Anastácio de Oliveira Camargo, começou a ser delineada em 2014 e teve as primeiras coletas realizadas em 2015, sendo finalizada no ano passado. O estudo também foi realizado em conjunto com a Universidade da Geórgia (UGA), nos Estados Unidos. “As amostras do principal estudo foram enviadas para os EUA, onde desenvolvemos diversas análises nos laboratórios da UGA. Cabe salientar que em 2017 já haviam cortes na pesquisa e estávamos com pouco recurso para bancar as análises, então a UGA acabou bancando basicamente todas. Estes resultados geraram um artigo publicado no início do ano”, conta.

Durante a pesquisa, Andrade observou que a poluição do Guaíba é resultante do processo de urbanização de Porto Alegre, que impulsionou o despejo de esgotos, drenagem urbana e indústrias no lago. “Não conseguimos encontrar grandes efeitos da agricultura no entorno, como os arrozais, mas sem dúvidas que ocorrem também. Porém, provavelmente, a poluição urbana é maior. Enquanto houve cidade, houve poluição. Isto é natural”, explica o engenheiro ambiental.

De acordo com Andrade, a pesquisa não conseguiu determinar quando o Guaíba começou a ser poluído, mas detectou que a população residente na Capital já percebia que ele estava poluído já nos anos 1820. Segundo o pesquisador, o lago registra atualmente dois tipos de poluição: a orgânica, que diz respeito a elementos químicos como Carbono, Nitrogênio e Fósforo e é ocasionada por esgotos, e a inorgânica, que é a poluição industrial, representada por metais, sendo diversos deles classificados como potencialmente tóxicos, como Zinco, Cobre, Chumbo, Níquel e Mercúrio, por exemplo.

Os dois tipos de poluição são derivadas de “esgotos, da drenagem urbana, que carrega toda sujeira das ruas, incluindo a derivada do grande trânsito de veículos, e dos usos urbanos variados”, conforme explica Andrade, que também pontua que “cedo ou tarde, tudo chega no Guaíba”. Ainda segundo pesquisador, estes dois tipos também são resultantes das indústrias. “Grande parte surge de toda bacia hidrográfica – Região de Drenagem -, que vêm de toda região metropolitana e de 1/3 do Estado”, relata.

Poluição no Guaíba foi intensificada com o processo de urbanização de Porto Alegre.

Segundo o engenheiro ambiental, a poluição orgânica tem a capacidade de se degradar com o tempo, já a poluição industrial, persiste no lago com o passar dos anos. “A principal questão não é quando houve uma poluição, mas quando houve a poluição que persiste até hoje. A poluição [industrial] foi muito forte nos anos 1960 e 1970, com o boom das indústrias no Brasil”, explica.

Segundo Andrade, a situação de poluição do Guaíba era pior nessas décadas, quando 100% do esgoto era lançado no lago sem nenhum tratamento. Ele menciona que um outro estudo, realizado em 1998 por um pesquisador que coletou no Guaíba três amostras de cores, que são amostra em profundidade dos sedimentos, descobriu que a maior presença de metais no lago ocorreu por volta dos anos 1960 e 1970. “Foi o período chamado de milagre econômico do Brasil. As indústrias se multiplicaram nessa época, aumentaram muito em quantidade e, consequentemente, não tinham nenhum controle ambiental. Foi tentada uma série de métodos para reduzir essa poluição, mas só conseguiram lá pelos anos 1990, com a pressão de ambientalistas, como o [José] Lutzenberger”.

Andrade ressalta que as indústrias, embora sejam uma das vilãs da poluição industrial, são fiscalizadas, enquanto que a poluição gerada por esgotos é pouco cobrada. “Porto Alegre conta com capacidade de tratamento de esgotos de 80%, mas trata efetivamente quase metade disso, somente 65%, segundo dados”, explica. Conforme ele, a poluição por esgotos é mais preocupante que a industrial, uma vez que carrega Carbono, um elemento que se liga aos outros poluentes. “Então, formam-se plumas de contaminação que fluem pelos arroios, como o Dilúvio”, diz.

De acordo com ele, a ausência de uma cobrança acerca dos cuidados com a poluição gerada por esgotos, ampliada pela falta de investimentos em drenagem urbana, “faz com que estes arroios – Dilúvio, Cavalhada, Salso – se tornem apenas um depósito ou caminho dessas poluições, carregando para o lago de onde sai toda a água para Porto Alegre”. Em função disso, Andrade afirma que “POA vive quase que um ciclo fechado de poluição”.

Ainda, além da poluição orgânica e inorgânica, a pesquisa também encontrou micropoluentes no Guaíba. Segundo Andrade, eles consistem em compostos orgânicos e desreguladores endócrinos. “Avaliamos alguns compostos, porém são análises sensíveis e muito caras, necessitando de estudos aprofundados. São compostos que não se notam em análises tradicionais, nem são recorrentemente avaliadas”.

O estudo de Andrade detectou dois tipos de poluição no Guaíba: a orgânica e a inorgânica. 

Impactos da poluição no Guaíba

Segundo Andrade, todos estes tipos de poluição presentes no Guaíba afetam de forma direta ou indireta a todos os moradores de Porto Alegre e das cidades do entorno. “Toda água de abastecimento sai dali. Mesmo que as pessoas não bebam, elas tomam banho. Por isto, sempre que há alteração na qualidade [da água], como cheiro e gosto, ela é sentida pelas pessoas. A alteração na qualidade do Guaíba afetaria uma população de milhões de pessoas, não apenas as que vivem em POA, mas as que passam pela cidade também”, diz

O engenheiro ambiental ressalta ainda que o Guaíba não é apenas uma fonte de água, mas também o habitat de diversos animais, como, por exemplo, peixes que são pescados e consumidos por comunidades ribeirinhas. “Isso pode envolver problemas de saúde. Quando falamos em poluição [do Guaíba], estamos falando de saúde pública e bem estar”, pontua.

Por afetar não só Porto Alegre, mas também outras cidades, Andrade afirma o Guaíba trata-se de uma “questão de Estado, não de município”. “O lago faz fronteira com várias cidades, como Viamão, Guaíba, Barra do Ribeiro, Eldorado, por exemplo, e recebe as águas de 1/3 do território, desde o Planalto médio. As águas que passam pelo Guaíba seguem para a Laguna dos Patos, afetando outras cidades, e depois vão para o mar”, explica.

Andrade também ressalta que o Guaíba é a única fonte de água que Porto Alegre possui. “Até já se falou que Porto Alegre tem como reserva técnica a Lomba do Sabão, mas não é bem oficial isso. A Lomba é meio pequena, não daria conta de abastecer a cidade inteira. E a Lomba também já está poluída”, diz. De acordo ele, se o lago sofresse algum grande problema, a Capital ficaria desabastecida e teria que esperar que a água trocasse antes de poder coletá-la novamente, o que, segundo ele, demoraria “mais de 15 dias, que é o tempo de detenção hidráulica”. “Se acontecer alguma coisa com o Guaíba, Porto Alegre vai ficar hiper problemática, por isso precisamos cuidar dele. Porto Alegre depende intrinsecamente do Guaíba”.

Segundo Andrade, a maior parte da população tem medo de usar o Guaíba como uma área de banho. Porém, alguns utilizam partes do lago distantes do centro da cidade. 

Para o engenheiro ambiental, a primeira medida imediata para reverter a situação atual do Guaíba é cessar a poluição. “É realmente investir em um modo que possa reduzir essa poluição. Não adianta fazer uma super máquina que trate o Guaíba, como se fosse praticamente uma estação de tratamento de esgotos, porque esse tratamento teria que ficar o tempo todo ligado. Não estamos trabalhando o Guaíba como se ele fosse um lago que sofreu um problema pontual, como se tivesse estourado uma barragem e tivéssemos que tratar emergencialmente o Guaíba. Não, a poluição está constantemente entrando”, diz.

De acordo com Andrade, para diminuir a poluição seria necessária uma maior fiscalização de indústrias por parte da Fundação Estadual de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul (FEPAM), o controle da drenagem urbana e também que o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) aumentasse o tratamento de esgotos. Segundo o engenheiro ambiental, Porto Alegre já foi referência nessas temáticas e, até mesmo, uma das primeiras capitais a possuir Plano de Drenagem e ter o maior tratamento de esgotos. “Mas não basta estar em primeiro, o mínimo de tratamento de esgotos que precisamos aceitar é 100%. Quem quer beber as águas do mesmo lago para onde fluem seus próprios esgotos?”, questiona.

 

Fonte: SUL21

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