Vacinando no ritmo do melhor dia, RS imunizaria grupos prioritário até outubro, estima pesquisador

Avanço da vacinação não tem qualquer cronograma garantido
no país, apontam especialistas

Conforme levantamento divulgado na última quinta-feira (8) pelo consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde, o Rio Grande do Sul se tornou o Estado que mais vacinou sua população contra a covid-19 até agora. De acordo com o Painel de Vacinação, 1.639.168 gaúchos receberam a primeira dose e a segunda dose foi aplicada em 379.905 pessoas, alcançando um total de 2.019.073 até a manhã deste sábado (10). Mas mesmo tendo vacinado cerca de 15% da população e liderando o ranking nacional, o RS não pode oferecer qualquer garantia de em quanto tempo terá imunizado nem mesmo os grupos prioritários.

Na última quarta-feira, o Instituto Butantan anunciou a suspensão do envase de novas doses da CoronaVac, vacina produzida em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, em razão de atraso na entrega do principal insumo usado no imunizante, o IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo). O impasse é apenas o mais recente de uma sucessão de problemas que já fez o Ministério da Saúde alterar cinco vezes o cronograma de vacinação contra a covid-19 no Brasil. Após três meses do início da vacinação, não há um planejamento que permita estimar de maneira confiável como a vacinação deve avançar no país. Na prática, apenas com a chegada de novos lotes as secretarias municipais vêm anunciando a ampliação das faixas etárias aptas a serem vacinadas e de novos grupos prioritários.

Atualizado em tempo real, o mapa de vacinação preenchidos pelos próprios municípios, mostra que o Rio Grande do Sul recebeu até agora 3.163.150 de doses, das quais 3.029.999 foram distribuídas às prefeituras até a tarde desta sexta-feira. As doses que não foram encaminhadas servem como reserva técnica para casos de avarias ou perdas. Do total distribuído, pelo menos 68% já foram aplicadas.

Diego Espíndola, Secretário-executivo do Conselho das Secretarias Municipais de Saúde (Cosems-RS), explica que a reserva de doses também garante que os grupos prioritários tenham a segunda aplicação garantida. “68% das doses distribuídas já foram aplicadas, isso quer dizer que as que não foram aplicadas foram aquelas doses que precisam estar em reserva técnica para que todos esses idosos de até 65 anos que receberam a sua primeira dose estejam garantidos que, após os 28 dias, tenham a sua segunda dose”, afirma.

Questionado sobre a programação da vacinação para os próximos meses de abril e maio, a assessoria de comunicação do Ministério da Saúde afirmou que as doses são planejadas e distribuídas aos estados a partir da chegada de novos lotes, divulgada nos sites do Ministério da Saúde e das secretarias de Saúde. “Quando as doses chegam, a gente consegue saber quantas doses vão para cada estado. Mas a previsão de doses para meses futuros, a gente não consegue”, diz a assessoria.

A Secretaria de Saúde do Estado diz que também não pode estimar o recebimento de novas doses e que só consegue planejar a distribuição a partir do encaminhamento do Ministério da Saúde. “Não há como prever, o Ministério da Saúde define o encaminhamento e os estados distribuem quando chegam”, afirma. “Hoje, o Plano Nacional de Imunização, Secretaria Estadual e o Plano Municipal de Imunização atendem o que o Ministério da Saúde nos passa. Nós vamos planejar até os 60 anos, estamos hoje no 64, se recebermos um lote hoje vai ser distribuído e a gente vai abrindo as idades”, afirma a diretora da Atenção Primária à Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, Luciane Beiró.

O maior número de vacinados no Estado foi registrado no dia 25 de março, com 69.522 gaúchos imunizados com a 1° dose e 3.173 com a 2°. Desde então, esse número não foi alcançado. O economista e colaborador da Rede de Análise Covid-19 Rodrigo Costa reitera que mesmo o Rio Grande do Sul sendo o Estado que mais vacinou até agora, o ritmo ainda segue lento. “Se a gente pegasse o número do dia 25 de março e transformasse na média daqui pra frente, mesmo assim levaria 114 dias para terminar de imunizar o grupo prioritário nas duas doses”, afirma. “Se a gente seguisse no ritmo do melhor dia, durante 114 dias, a gente terminaria de imunizar o grupo prioritário com duas doses e seria aproximadamente 50% da população do Rio Grande do Sul vacinada”, completa.

Costa assegura que para alcançar redução no contágio e nas internações e para a população estar protegida é preciso que 60% das pessoas no Estado estejam vacinadas. “Acho que a partir de setembro ou outubro terminaríamos o grupo prioritário e [precisaríamos de] mais 2 milhões de doses para chegar nesses 60%. Então, vai levar bastante tempo para que possamos sentir o impacto nos casos de internações e aliviar um pouco o nosso sistema de saúde”, diz. “Se a gente acelerar, se tiver vacina o suficiente, é no mínimo até o fim do ano, e até lá a gente tem que conter a doença”, afirma.

Além disso, Costa chama a atenção para as variantes que estão sendo registradas pelo país e como isso pode impactar no ritmo da vacinação. “As variantes são fruto da nossa mobilidade porque estamos misturados em pessoas vacinadas, pessoas não vacinadas, pessoas que já se infectaram, pessoas que não se infectaram. É assustador pensar em uma variante que possa desviar do poder imunizante das vacinas e nos complicar”, diz. “A pauta da vacina é importante, sabermos como está andando a vacinação é importante, mas é mais importante que as pessoas entendam que não acabou ainda, não é porque tem vacina disponível que não precisa ter cuidado”, completa.

*Esta reportagem é uma produção do Programa de Diversidade nas Redações, realizado pela Énois –
Laboratório de Jornalismo, com o apoio do Google News Initiative. 

Fonte: Sul 21

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