“O principal desafio é representar a classe trabalhadora”, diz o ex-diretor do STIMMMESL, Quintino Severo

O metalúrgico Quintino Severo tem uma longa jornada no movimento sindical. Natural de Santa Maria, centro do RS, ele é técnico em eletromecânica e em 1987 entrou para a direção do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de São Leopoldo e Região (STIMMMESL).  Foi presidente da CUT-RS por duas gestões, num período marcado pelo enfrentamento da crise das finanças públicas do estado, luta pela valorização do trabalho, ampliação de direitos e em defesa da classe trabalhadora gaúcha. Após, foi eleito Secretário Geral Nacional da CUT, também assumiu a secretaria de finanças Nacional, atualmente Quintino é secretário adjunto de Relações Internacionais e Conselheiro da CUT no Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (CODEFAT).

Hoje, morando num sítio em São Sebastião do Caí, ele é enfático ao afirmar que “O principal desafio é representar a classe trabalhadora” e não só os trabalhadores organizados. Para Quintino, movimento sindical precisa dar um passo à frente. “Estou convencido de que a organização sindical precisa dar um passo à frente, olhar para esse novo mundo, nova classe trabalhadora que está colocada a partir da última reforma trabalhista e claro das mudanças no mundo do trabalho, da quarta revolução industrial”.

 

Confira a íntegra da entrevista:

 

Conte um pouco da sua história? Como entrou no movimento sindical?

Eu iniciei minha militância na Pastoral da Juventude e também na Juventude Operária Católica (JOC), em 1982, 1983. Em 1985 eu ajudei a oposição do Sindicato dos Metalúrgicos de São Leopoldo, não entrei na chapa, mas ajudei. Fui fiscal da eleição pela chapa 3, que era a chapa da CUT na época. E na gestão seguinte entrei na direção, em 1987, na segunda gestão de chapa da CUT. Tive um mandato na executiva do Sindicato, depois continuei na base. A minha militância iniciou como consequência do que percebíamos na Pastoral da Juventude, necessidade de organizar o movimento sindical, víamos que os sindicatos são ferramentas importantes para lutas e conquistas, portanto tinha que aprofundar essa relação com os sindicatos.

 

 

É característico do STIMMMESL ter dirigentes que se destacam no movimento sindical do país. Na tua opinião, a que se deve isso?

Nós tivemos sempre no Sindicato uma pluralidade de opiniões, a direção sempre foi composta por diversas opiniões políticas e esse debate que fizemos sempre com muita democracia e respeito às opiniões fortaleceu os nossos dirigentes e militantes, o que ajudou a construir lideranças tanto para o estado como para o país. Eu acabei um tempo na CUT Estadual, fui presidente por dois mandatos, depois fui secretário geral da CUT Nacional, agora estou na secretaria de Relações Internacionais da CUT. O Loricardo está na CNM/CUT já há alguns mandatos, o Milton Viário presidiu a nossa Federação, que também é uma referência aqui no estado. Acredito muito nessa capacidade que a gente teve e tem de debater, de mostrar, de apontar que a luta não é apenas local, ela precisa ter amplitude, estadual, nacional e também internacional para fortalecer as organizações dos trabalhadores em qualquer espaço que a gente represente.

 

Qual a importância da categoria metalúrgica para a organização do movimento sindical no Brasil?

Não tenho dúvidas que os metalúrgicos brasileiros são uma referência mundial. O fato de termos tido um Presidente da República que teve origem na categoria dos metalúrgicos e que teve dois mandatos que foram referência mundial, ajuda a fortalecer a importância dos metalúrgicos do Brasil no mundo todo. Evidentemente, que a indústria tanto no Brasil como no mundo, é o carro chefe do desenvolvimento, não existe país que seja desenvolvido e não tenha uma indústria forte, que se destaque e seja referência e aí os metalúrgicos neste processo de referência da indústria tivemos muitas lideranças, não só no Brasil, mas a nível internacional também. E isso representa a capacidade de articulação, a importância da indústria no mundo e isso é muito salutar, tenho orgulho disso, de poder contribuir com essa consciência de classe e ao mesmo tempo com essa referência para o conjunto dos trabalhadores de todo o mundo.

 

Tu vens de uma categoria que se modernizou e mudou muito nos últimos anos, pensando nas entidades que representam os trabalhadores metalúrgicos, tu achas que os sindicatos conseguiram acompanhar essas mudanças?

Essa é uma pergunta muito importante e quero ser muito honesto conosco, comigo mesmo e com as nossas direções. Eu penso que precisamos dar um passo a frente em termos de acompanhar a evolução tecnológica. Evidentemente, o nosso Sindicato em São Leopoldo tem se modernizado do ponto de vista de se adequar as novas tecnologias e ferramentas, principalmente às ferramentas de comunicação, mas penso que vamos precisar ser ainda mais rápidos nesta transformação e não só se adequar por se adequar, mas para se preparar para enfrentamento desse processo das novas tecnologias, que é muito rápido. Esse é um elemento importante na minha opinião e não só o movimento sindical aqui de São Leopoldo, mas de todo o Brasil, precisamos acelerar mais este processo para enfrentar melhor esse desafio. As transformações no mundo do trabalho são muito rápidas, esse movimento chamado quarta revolução industrial, que na verdade é a digitalização do mundo do trabalho é algo muito rápido e desafiador e acho que precisamos nos preparar melhor.

 

 

O movimento sindical, como um todo, está muito desacreditado. Como reverter isso?

Não é só o movimento sindical que está desacreditado. Passamos, nos últimos anos, no Brasil por um grande enfrentamento, uma tentativa de criminalizar a política, os movimentos sociais, em especial o movimento sindical. É um processo muito difícil, pois é todo um aparato, inclusive tecnológico, dos grande meios de comunicação, redes sociais, é um bombardeio desta tentativa para que desacreditem da política, da organização dos trabalhadores. Na verdade é um processo muito rápido e pesado, quem investe neste tipo de desinformação, investe com muito recurso e aparato, é difícil que com as nossas ferramentas que são escassas, enfrentar essa avalanche de desinformação de alguns setores que se organizaram, especialmente a extrema direita, para atacar a política, o movimento social e as organizações dos trabalhadores. Tenho clareza que vamos reverter isso enfrentando esse processo, debatendo a política com os trabalhadores, valorizando o espaço político, as lutas sociais, inclusive usando essas ferramentas para enfrentar esse processo. E estou convencido de que a organização sindical precisa dar um passo à frente, olhar para esse novo mundo, nova classe trabalhadora que está colocada a partir da última reforma trabalhista e claro das mudanças no mundo do trabalho, da quarta revolução industrial que é saber que não vamos mais só representar o trabalhador de carteira azul assinada, é entender que o nosso sindicato precisa representar os terceirizados, os PJ, quem tem contrato precário, temporário. Todos os sindicatos do Brasil precisam se preparar, assim acredito que a gente vai retomar a confiança, a importância dos sindicatos para a classe trabalhadora. E mais, o sindicato vai precisar não só estar no local de trabalho, nas fábricas, mas estar nos bairros, nas vilas e fazer assembleias não só no sindicato, mas pensar que tem que ter reunião nos bairros, pois é lá que o trabalhador informal esta e a gente pode representar ele. Esse é o grande desafio para a gente voltar a ter a confiança dos trabalhadores.

 

Qual a tua avaliação dos ataques que a classe trabalhadora tem sofrido desde o golpe de 2016. Como as reformas trabalhistas e da previdência?

Esses ataques são frutos dessa tentativa de macular a imagem da política e das instituições. As pessoas ficaram extremamente envenenadas com essa avalanche de ataques aos direitos, as representações tanto políticas como de classe e isso fez com que as pessoas ficassem desorientadas com essa avalanche de opiniões distorcidas propositalmente para macular a imagem das organizações, foi um processo pesado onde as pessoas não perceberam o que estava por traz do golpe. Quando o golpe em 2016 se dá contra a democracia, contra uma presidente democraticamente eleita havia todo um processo de envenenamento das pessoas, uma cegueira, uma imagem de que tudo estava errado, então fazer reforma, perder direitos geraria empregos e melhoraria a vida da classe trabalhadora. Ouvimos em 2016 que bastava tirar a Dilma que o emprego voltava, que o salário aumentava , que as condições melhorariam, que a inflação ia baixar e esse mesmo discurso foi feito na reforma da Previdência, salvaria o Brasil e o que estamos vendo não é isso. É cada vez pior, mais precarização, mais submissão, agora mesmo, volta o discurso que tem que aprofundar mais as reformas para gerar emprego e esse discurso sempre vai trazer mais precarização, danos para a classe trabalhadora e menos favorecidos. Então, precisamos, enquanto sindicato e organização, contrapor com dados e argumentos muito explícitos sobre o que é esse discurso que o governo e os empresários, que os atores políticos retrógrados tem feito no país.

 

Não tua opinião, falta consciência de classe para os trabalhadores?

Acho que falta, mas quando toda a sociedade recebe um discurso de negação, aparece um salvador da pátria que vai resolver todos os problemas, que não precisa partido político, não precisa uma organização forte, uma associação forte, quando vem esse discurso, esse argumento despolitiza, aliena a sociedade como um todo. E evidentemente, não querem debater política porque acham que é só a política partidária e não entendem que na medida que eu nego a política, eu estou fazendo política. Há um processo de alienação nesta narrativa e quando mais alienado o povo for, melhor para explorá-lo, então quanto menos consciência de classe as pessoas tiverem mais fácil explorá-las e o que aparece recentemente, as reformas foram isso, menos consciência de classe, mais exploração, mais reforma, mais precarização. Então penso, que nos sindicalistas não podemos de forma alguma permitir que esse discurso vá massificando e ganhando a maioria do povo brasileiro. Não são só os trabalhadores da base dos sindicatos que estão despolitizados, a sociedade como um todo e não podemos deixar criminalizar a organização coletiva, porque ao trabalhar as pessoas individualmente é mais fácil derrotá-las e enganá-las. Por isso, temos que reforçar o coletivo, a participação e o debate político de qualquer espaço que a gente esteja.

 

 

Qual o principal desafio do movimento sindical no próximo período?

O principal desafio é representar a classe trabalhadora. Não só mais aqueles que tem emprego fixo, que tem carteira assinada. A CUT trabalhou muito isso na Plenária Estatutária, já aprovamos no nosso Congresso em 2019, que precisamos representar a classe trabalhadora, não só mais os trabalhadores organizados. Esse é o grande desafio do próximo período e fazer um sindicalismo cada vez mais plurilocal, entender que precisamos representar todos aqueles que mesmo não tendo emprego fixo precisam do sindicato, de um apoio. Assim vamos resgatar a consciência de classe, a importância de um sindicato na vida de um cidadão que está precarizado, que está com dificuldade, inclusive, de sustentar a sua família, e assim que o sindicato tem que chegar, estender a mão e representá-lo, porque mesmo que o cidadão tenha uma micro empresa, seja um micro empreendedor individual, esse cidadão sozinho vai precisar do sindicato porque em algum momento o empregador dele vai cometer uma falta grave contra ele e vai precisa se defender, vai buscar onde se não tiver o sindicato para ajuda-lo a enfrentar o patrão que é muito maior que ele, isso vai acontecer com o MEI, com o PJ, com esses trabalhadores que tem contrato individual. Por isso que na minha opinião, esse é o desafio central, representar a classe como um todo. E evidentemente, o sindicato a curto prazo, para 2022, precisa fazer um debate de projeto de Brasil, temos um papel fundamental que é debater projeto, pois vimos o que aconteceu em 2018 com Bolsonaro e a negação política, estamos sofrendo as consequências agora. Então precisamos debater projeto e quem representa cada projeto, os sindicalistas não podem se furtar de fazer esse debate, de mostrar as diferenças que tem cada projeto que estará se apresentando para governo o país nos próximos quatro anos.

 

Muitos trabalhadores, mesmo os sindicalizados, não conhecem a estrutura sindical (sindicatos, federações, confederações, central…). Fale um pouco sobre a importância dessas instâncias para efetivar políticas que beneficiem os trabalhadores.

São fundamentais, porque veja, o sindicato tem uma abrangência muito local, regional, consegue fazer luta não só para categoria, mas social, porém naquela região, de certa forma é limitado a um espaço geográfico. Entretanto uma federação estadual consegue reunir os sindicatos de todo o estado na perspectiva de fazer uma ação coletiva para que a gente possa alcançar um equilíbrio nos direitos, que os metalúrgicos de todo estado tenham os direitos semelhantes seja aqui, em Carazinho, em Uruguaiana ou Caxias do Sul. O papel da federação é poder ajudar nesta organização e distribuição da garantia de direitos. A Confederação cumpre exatamente esse papel a nível nacional, busca também dar um certa hegemonizada num espaço de ter direitos nacionais, questões que temos aqui no Rio Grande do Sul, ter no Acre, em São Paulo, porque os direitos dos trabalhadores passam a ser nacionalizados. Então a Confederação cumpre esse papel, ajuda neste intercâmbio de informação e no processo de negociação, de cláusulas que vão sendo nacionalizadas, queria dar um exemplo importante aqui, que é o caso da Confederação dos Bancários que negocia uma convenção coletiva nacional. A nossa expectativa, da CNM, é um dia a gente negociar nacionalmente a CCT para que os trabalhadores de São Leopoldo tenham os mesmos diretos dos trabalhadores do ABC, de Manaus, Espirito Santo… Esse é o papel da Confederação, dar uma equilibrada no direito daquela categoria porque isso vai evitar que as empresas se desloquem de um estado para outro em busca da mão de obra mais barata. Por isso, a importância de os trabalhadores entenderem o papel de uma Confederação. Já uma Central, no nosso caso a CUT, ela faz esse intercâmbio com outras categorias, fazendo lutas e buscando direitos iguais. Um exemplo muito importante foi a luta pelo salário mínimo, feito em 2003, 2004, 2005, que era a busca por um salário mínimo valorizado, com reajuste anual acima da inflação, porque o salário mínimo subindo obriga todos os outros salários a subir. A CUT cumpre esse papel e fortalece toda a classe trabalhadora.

 

O que os sindicatos podem fazer para conquistar mais sócios, principalmente os jovens?

Hoje, a juventude é muito influenciada pelo individualismo, então a tarefa de buscar mais associados  é uma ação muito importante e que passa, na minha opinião, pelo sindicato se adequar um pouco mais pela cultura do jovem, das transformações que vem ocorrendo, pois precisamos compreender o que o jovem espera do sindicato. O movimento sindical deveria ter uma pesquisa para buscar a opinião dos trabalhadores, jovens, no que o sindicato deveria fazer para ele. Na medida que o Sindicato descobrir o que a categoria espera, ajudaria até para tocarmos políticas mais direcionadas e convencer com mais facilidades o trabalhador a se associar. Além de uma pesquisa, esse debate de não negar que a gente está em disputa contate de projeto ajuda a consciência de classe, a mostrar o papel do sindicato e isso que vai convencer a juventude, os trabalhadores a se associar no sindicato. Fundamental é compreender o que o jovem quer do sindicato. Nos acabamos de fazer uma pesquisa com os trabalhadores em aplicativos em Brasília e Recife e são surpreendentes as respostas, a gente acha que basta dar um discurso para eles montarem um sindicato, muitos não querem sindicato, querem outras formas de organização. Conhecer o que a juventude pensa é importante para apresentarmos uma proposta de sindicalização e um sindicato que vá responder a expectativa dela.

 

Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

As perguntas dão dimensão do que está em disputa no momento, mas para complementar a última pergunta combina muito com os desafios do próximo período que é entendermos que temos que representar o conjunto dos trabalhadores, a pesquisa da CUT não foi à toa. E esse é o grande desafio, conhecer o que os trabalhadores querem e nos estarmos dispostos a representá-los. Conhecer e pesquisar faz parte dos desafios do moviment0o sindical.

 

 

 

Fonte: STIMMMESL

Imagens: Israel Bento Gonçalves

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