“Sindicato existe para combater injustiças”, afirma o presidente do STIMMMESL, Valmir Lodi 

A partir de hoje (17), o STIMMMESL publicará todas as sextas-feiras a “Entrevista de sexta”, uma matéria especial com pessoas importantes para o movimento sindical da região e do país. O primeiro entrevistado da série é o presidente do Sindicato, Valmir Lodi.

Metalúrgico da Gerdau desde o começo da década de 1990, Valmir Lodi tem 55 anos. É casado há 30 anos com a esposa Mônica, com quem tem duas filhas, é colorado, tradicionalista, morador de Sapucaia do Sul e presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de São Leopoldo e Região (STMMMESL). A base de cerca de 18 mil trabalhadores é extensa também territorialmente, pois abrange os municípios de Esteio até Campo Bom, o que aumenta os desafios da direção da entidade, mas Valmir tem claro que “Sindicato existe para combater as injustiças”.

Nesta entrevista, ele ressalta a importância do sindicalismo, os ataques por parte do governo, a falta de consciência de classe dos trabalhadores e os desafios para o próximo período. “Os trabalhadores precisam começar a entender e debater política, porque a política está casada com a nossa luta dentro da fábrica”, disse. Valmir também falou sobre a importância dos trabalhadores defenderem e se associarem ao STIMMMESL para fortalecer a entidade e proteger a própria categoria.

Confira a entrevista na íntegra:  

Conta um pouco da sua história. Como entrou no movimento sindical? 

Entrei no movimento sindical no início dos anos 90, era funcionário da Gerdau. Na época, havia cerca de 3 mil trabalhadores na empresa e 12 sócios do Sindicato, fizemos uma campanha de sindicalização e alavancamos esse número. Na verdade, eu nem entendia muito como funcionava o Sindicato e através do companheiro Quintino Severo (ex-presidente do STIMMMESL), fui fazendo aprimoramento, formação e passei a entender que o Sindicato era para combater a injustiça que tinha dentro da empresa. Fizemos bons embates dentro da Gerdau, naquela época havia um acordo falcatrua sobre os turnos de revezamentos e batalhamos para desmanchar o acordo. De lá para cá, a empresa ficou com o mesmo acordo por quase 30 anos, conseguimos fazer com que a Gerdau cumprisse a regra e fomos abrindo negociações… Na época, havia muita perseguição com os dirigentes sindicais, suspensões, advertências, justa causa e ainda assim seguimos, colocando o sindicalismo em prática.

E sua trajetória aqui no Sindicato? 

Fiquei 19 anos dentro da Gerdau. Me associei assim que entrei na empresa, sempre fui sócio, até quando trabalhava no Rossi. Eu gostava de ver a luta do Sindicato e apareceu a oportunidade de entrar na direção do Sindicato e entrei para combater as injustiças. Comecei como diretor de base, fui secretário de formação, sempre fazendo a luta junto com a companheirada.

Esse é o seu segundo mandato frente ao STIMMMESL, entidade de referência para a região e no movimento sindical. Qual a sua avaliação desse período? 

Nunca tive a intenção de ser presidente do Sindicato, surgiu a oportunidade e topei. Ser presidente é uma responsabilidade muito grande, temos que ser propositivos e saber conviver com as divergências. Enfrentamos várias questões internas, mas fomos aprendendo, parando de brigar entre nós e levando para dentro das fábricas, a posição do Sindicato. A nossa categoria é uma das maiores aqui do Estado, o nosso Sindicato é um dos maiores, a nossa representação vai de Esteio até Campo Bom e isso nos dá uma tremenda responsabilidade. Um presidente do Sindicato tem que ter ética, postura para combater as injustiças e traçar uma política que venha de encontro aos trabalhadores.

Qual o maior desafio que o senhor enfrentou nos últimos anos? 

O maior desafio é não deixar tirar os direitos. Vivemos uma época difícil, a luta é para não tirar direitos. Temos avançado muito pouco.

Qual a tua avaliação dos ataques que a classe trabalhadora tem sofrido desde o golpe de 2016. Como as reformas trabalhista e da previdência? 

Explicamos desde o começo que o golpe não era para tirar a Dilma, mas para tirar os nossos direitos. Por exemplo, a aposentadoria especial acabou, hoje ninguém se aposenta mais como especial. Ainda bem que MP 1045 não passou, era mais retirada de direitos. Agora eles querem tirar os 40% dos trabalhadores… E eles não perceberam. Subiu a gasolina, a carne, o arroz, o feijão que é básico. Então não melhorou para o trabalhador. O que é um governo de direita? É um governo que vem para retirar direitos dos trabalhadores com o discurso de que as empresas têm que crescer e gerar emprego. As empresas estão gerando emprego, mas quem ganha aumento real se o Sindicato não luta? Então, os trabalhadores precisam acordar, fazemos assembleia nas portas de fábricas para alertar e cair ficha. Imagina se esse governo se perpetuar no poder, o que vai acontecer com os trabalhadores? Não vai mais ter direito. O que resta, férias,13º salário, 40% do FGTS, daqui a pouco não terá mais. Outra coisa, os trabalhadores pensam que a reposição da inflação é direito conquistado. Não é. Todos os anos precisamos negociar junto com a Convenção Coletiva de Trabalho. Por isso, precisamos de um Sindicato forte e combativo.

O movimento sindical, como um todo, está muito desacreditado. Como reverter isso? 

A gente reverte com trabalho, colocando os trabalhadores que queiram defender o Sindicato, pois a entidade sindical é dos trabalhadores então a categoria tem que saber escolher os companheiros que coloca na direção. As vezes, a pessoa chega aqui, acha que vai ficar rica e ganhar dinheiro, não vai. Aí se acomoda e não quer mais. Estou há 30 anos no movimento sindical e sei que a gente tem que fazer luta todos os dias. O Sindicato é para defender os trabalhadores. A gente fica desacreditado porque tem gente que entra para a entidade e não cumpre o papel de dirigente sindical. Tem que enfrentar o patrão e isso não é fazer guerra, mas dialogar, desde o papel higiênico até o bebedouro d’água temos que discutir. E assim que os trabalhadores vão acreditar no Sindicato.

Não só aqui, mas em diversas entidades, é alto o número de oposição. Na sua opinião, falta consciência de classe para os trabalhadores? 

Com certeza. E essa consciência de classe tem dois lados, a dos patrões e a dos trabalhadores. Os trabalhadores pensam “ah vou dar dinheiro para o Sindicato”, não é dar dinheiro para o Sindicato, é investir na luta, para poder ter força contra os patrões. O que faz um Sindicato forte não é o prédio, eu ou a direção, são os trabalhadores e quando eles entenderem isso, vão parar de fazer oposição. Os trabalhadores tem que sustentar o Sindicato porque é a entidade é deles. O sindicato patronal está lá e defende as empresas, também fazem as convenções e tem os descontos deles, que é 6% da folha das empresas. Imagina o quanto de dinheiro não arrecadam? Nos arrecadamos um pouquinho de cada um e ainda assim o trabalhador não quer. Essa é a disputa de classe.

A indústria metalúrgica é predominantemente masculina, porém as mulheres estão conquistando cada vez mais espaços no chão de fábrica e nos sindicatos. Qual o impacto dessa mudança? 

 É uma mudança muito boa, interessante. A mulher tem que ocupar o seu espaço nas fábricas, nos sindicatos e tem espaço para as mulheres. Essa é uma luta que a gente sempre fez, faz e vamos continuar fazendo. Nas fábricas, cada vez aumenta mais o número de trabalhadoras mulheres e não podemos esquecer que elas tem a jornada dupla, trabalham nas fábricas e em casa com os deveres do lar e dos filhos. Muitas vezes, os homens não tem essa compreensão e não dividem as tarefas.

No próximo período qual o maior desafio do Sindicato?  

Estamos atravessando um período muito difícil neste país. Precisamos ficar atentos com esse maluco que está na presidência. Os trabalhadores precisam começar a entender e debater política, porque a política está casada com a nossa luta dentro da fábrica. Conforme a política se move lá em cima, os patrões se mexem aqui para tirar direitos e quem elege governo de direita corre risco de ter seus direitos surrupiados. Então vamos enfrentar esse próximo período e saber que temos a possibilidade de trazer um governo dos trabalhadores de volta. Espero que cada trabalhador reflita sobre o que fez nas eleições passadas para termos governos melhores, se não houver avanços, que não haja retirada de direitos. Temos que fazer a reflexão, será um período difícil e a nossa luta não pode parar no chão de fábrica, mas tem que se estender cada vez mais para a região, o estado e o país.

E da indústria? 

O desafio da indústria é ainda maior, pois como gerar emprego? Aqui na região, algumas empresas geram empregos, mas isso ainda é muito pequeno, pois não temos um governo que faça investimentos. Precisamos ter indústria qualificada para disputarmos esses empregos. Espero que o próximo presidente tenha uma política de desenvolvimento para o país, principalmente para a indústria que gera emprego e com isso, tem mais renda e não tem crise. Quem gera a crise são os próprios governos.

O que você diria para o trabalhador que é sócio do Sindicato? E para o que não é? 

Diria que os sócios do Sindicato são uns guerreiros porque eles entendem a luta e não é uma piscina, um ginásio, uma área de lazer que chama o sócio. Ainda é muito pequeno o número de associados perto do tamanho da nossa base, espero que continuem sócios, pois fazem a luta e tem direito a voz aqui dentro. Aqueles que não são associados, tem que entender que são os sócios que fazem o Sindicato. Conclamamos esses trabalhadores para que se associem, venham conhecer o Sindicato, a luta e nos cobrar se ver algo errado, que não gostaram, pois isso aqui é uma democracia, temos sempre que saber escutar. Queremos todos os trabalhadores associados, assim, mais a patronal nos respeitará e com respeito e luta vamos construir um Sindicato ainda melhor.

Fonte: Renata Machado (STIMMMESL)

Imagens: Israel Bento Gonçalves (STIMMMESL)

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