“O Sindicato precisa ser um ambiente acolhedor para a mulher”, afirma ex-diretora do STIMMMESL, Shirley Cruz 

Foram mais de 10 anos como dirigente sindical, inclusive com cargo na direção executiva, feito histórico para uma mulher metalúrgica. De 2005 até 2016, período que esteve no Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de São Leopoldo e Região, Shirley Cruz se tornou referência para diversas trabalhadoras da categoria. “Elas normalmente entravam em contato direto comigo para tentar resolver alguns problemas ou até sanar dúvidas”, lembra e defende que “o Sindicato precisa ser um ambiente acolhedor para a mulher”.

Casada, mãe de um casal de filhos e moradora de Sapucaia do Sul, Shirley acredita que hoje, fora do movimento sindical, consegue enxergar melhor algumas coisas como o machismo e a dificuldade das mulheres ocuparem seus espaços.  “Nós, mulheres, somos verdadeiras guerreiras, precisamos lutar todos os dias por nossos espaços e nunca, jamais, pensar que conquistamos…. Pois teremos que provar que somos merecedoras de estarmos ali”, garante.

Leia a íntegra da entrevista:

Conte um pouco da sua história? Como entrou no movimento sindical? 

Sempre gostei de ler e me informar sobre direito do trabalhador. Eu via um programa na TVE que era diário e esclarecia muitas dúvidas dos trabalhadores. Quando comecei a trabalhar na indústria, na metalúrgica MSI em 2004, os trabalhadores eram muito desenformados e eu comecei na hora do almoço, comentava isso pode, isso não pode e o grupo começou a ficar maior e o bate papo, já era quase uma aula. Eu tinha que me informar várias vezes pois o grupo sempre fazia questionamentos… Assim, fui sendo reconhecida na empresa junto aos trabalhadores, tínhamos muitas mulheres inclusive um setor da produção era só com mulheres. A MSI, na época, tinha 224 funcionários e na eleição da CIPA me candidatei e me elegi com 167 votos, isso fez com que alguns diretores sindicais ouvissem falar sobre uma mulher se destacando… Segundo foi me relatado mais tarde. Fui convidada a entrar na direção do Sindicato, na época éramos cinco mulheres, mas todas em funções sem representatividade e no próximo mandato o número de mulheres infelizmente diminuiu.

Você foi uma das dirigentes mulheres que mais se destacou no STIMMMESL. Como foi a tua experiência aqui no Sindicato?  

Eu não sei se fui a dirigente que mais se destacou, mas de fato devido a trajetória de trabalho junto à categoria e levantando a defesa em situações específicas relacionadas ao gênero. Isso fez com que algumas mulheres trabalhadoras, pudessem se sentir representadas dentro da entidade. Tanto que em algumas empresas onde o número de mulheres trabalhadoras principalmente no chão de fábrica era maior, elas normalmente entravam em contato direto comigo para tentar resolver alguns problemas ou até sanar dúvidas. Tivemos muitas vitórias dentro do período que fiquei na direção do Sindicato (quase 12 anos), inclusive algumas cláusulas sociais que conseguimos negociar na convenção coletiva (negociação de toda a base do STIMMMESL), fora algumas vitórias em acordos coletivos (negociação com a unidade de trabalho – empresa). Dentro do Sindicato no início não foi muito fácil, pois muitos dirigentes eram machistas “apesar de dizerem que não”, e outros se declararem! Mas as cotas garantiam a minha participação, na direção e em vários cursos de formação para dirigentes. Isso fez com que eu tivesse meu conhecimento ampliado, fazendo com que pudesse ter maiores argumentos e dados na hora de negociar, seja com as empresas ou dentro da direção também! Tive alguns episódios de falta de respeito e discriminação da parte dos próprios dirigentes na época… Mas com o passar do tempo, pude mostrar que estava ali pra somar esforços e ter melhores resultados para categoria e até mesmo pra direção do Sindicato… Aos poucos fui conquistando a confiança de alguns dirigentes e da base. Isso fez com que no próximo mandato, eu fosse nomeada diretora executiva a frente da pasta de comunicação da entidade, onde tentei mudar a parte visual do site, perfil nas redes… Levei o Sindicato para um nível mais atual e moderno, usando um pouco mais a tecnologia e não descartando as ferramentas de comunicação já existentes! Infelizmente a empresa que eu trabalhava entrou em processo de falência e depois tentou a recuperação judicial, levando a demissão de todos, inclusive os dirigentes sindicais, e isso acabou com a minha participação no Sindicato como dirigente.

Qual a importância das mulheres ocuparem seus espaços? 

A importância é imensa, mas justamente por isso é muito difícil… Eu costumava dizer para as mulheres nas formações que fazíamos “espaços não são cedidos, devem ser conquistados!” E essa conquista não é fácil, temos que trabalhar três vezes mais pra provarmos o nosso valor. E mesmo assim tendo dez acertos, basta um erro pra que tudo o que façamos de bom seja esquecido. Os companheiros dirigentes, sabem que as mulheres ocuparão os espaços de outros “homens” e por isso muitos não fazem grandes esforços para trazerem mulheres pra o meio sindical! Ao verem que a mulher se destaca, ficam com receio de perder sua “cadeira cativa”. Pode parecer cruel, essas minhas palavras, entretanto eu vivenciei isso em todos os âmbitos, sindicato, federação, confederação… E isso não é diferente no ambiente de trabalho, nós, mulheres, somos verdadeiras guerreiras, precisamos lutar todos os dias por nossos espaços e nunca, jamais, pensar que conquistamos…. Pois teremos que provar que somos merecedoras de estarmos ali! E é por isso, ao meu ver que muitas mulheres não querem participar do movimento sindical, pois já tem tantas batalhas e não querem mais essa!

O chão de fábrica e o movimento sindical é bastante machista. Como você lidou com isso?  

Penso que não lidei muito bem no princípio, pois ficava muito estressada com algumas atitudes e acabei em muitas ocasiões tendo atitudes grosseiras para me impor. Mas na época foi o que consegui fazer… Em algumas vezes, me via não sendo eu mesma, me tornando masculinizada para ser aceita. Com o tempo fui trabalhando e buscando ser reconhecida por esse trabalho. Hoje fora, consigo perceber isso melhor.

Na tua opinião, qual o principal desafio das mulheres no movimento sindical? 

Conforme já relatei anteriormente, o maior desafio é garantir o espaço e um espaço de qualidade. Pois bem sabemos que as mulheres na direção dos sindicatos, principalmente do ramo metalúrgico em sua grande maioria ocupam vagas sem autonomia, estão ali apenas para garantir a cota que é exigida. Sei que muitas pessoas são contra as cotas, mas enquanto não houver a consciência, a cota é o que garante a inserção das mulheres nas direções. Mas eu gostaria que a cota fosse válida também, para as vagas de diretores executivos onde a mulher estivesse à frente do sindicato, onde outras mulheres trabalhadoras pudessem se espelhar e isso viesse fomentar a vontade de participar mais do meio sindical.

Qual a importância do movimento sindical acolher as mulheres trabalhadoras, sejam elas sócias da entidades ou não? Como isso pode ser feito? 

A importância de ser acolhida é grande, mas para acolher você precisa ter empatia! Infelizmente, raramente vejo isso no movimento sindical. Quando não há uma mulher para receber a trabalhadora, seja sócia ou não, dificilmente o homem irá acolher, ou ainda acolher da forma correta. Isso por vários motivos: por não fazer parte de sua vivência,  porque isso não importa pra ele, porque talvez em sua visão isso seja “frescura” – como ouvi várias vezes, ou ainda por se sentir constrangido diante de uma situação específica, por medo de ser mal interpretado e ainda ser julgado de aproveitador (que está assediando a mulher). Respondendo como fazer, penso que deveria ser como foi feito nas delegacias da mulher e criando a secretária de gênero, não só dá mulher. Mas de todos aqueles que não se sintam representados! O Sindicato precisa ser um ambiente acolhedor para a mulher, onde ela saiba que seu problema, sua dificuldade, sua dúvida será de fato levada em conta e que haverá empenho em resolver a situação, onde pelo menos que uma mulher com poder de resolução e com empatia às suas necessidades esteja ali.

Qual a tua avaliação dos ataques que a classe trabalhadora tem sofrido desde o golpe de 2016. Como as reformas trabalhistas e da previdência?  

Pra ser bem sincera, eu não tenho total conhecimento da reforma. Fui convidada a participar de uma aula de um curso universitário, onde eles estavam na matéria debatendo o tema direito sindical, fui me atualizar para participar da aula, o que eu li me deixou extremamente preocupada. Conversando com algumas alunas percebi que elas nem sequer sabiam diferenciar o que era lei da CLT, de um acordo coletivo ou ainda convenção coletiva. E é isso. na minha opinião, o maior problema no Brasil, nós encontramos tempo pra olhar filmes, redes sociais, ficar horas viajando na internet, mas não temos a vontade de ler um Projeto de Lei, se inteirar do que está sendo votado e o quanto isso irá nos afetar e as próximas gerações. Claro que sempre há exceções, mas a maioria vê informações na TV ou ainda agora muito utilizada as redes sociais, onde nem sempre temos os cuidados de ver se as informações são verídicas e de onde elas estão sendo divulgadas. Às vezes, conteúdos falsos com temas errados são disseminados, porque não nos atentamos a ver qual a fonte daquele tema. Voltando a questão da reforma, sinto muito por todos nós, pois tivemos direitos básicos que foram conquistados com muita luta, simplesmente retirados e eu não vi ninguém batendo panela, fazendo manifestação. E isso afetará nosso bolso, nossa qualidade de vida, pois as modificações mexem em questões como férias, horário de descanso e alimentação, carga horária, deslocamento remunerado, ações na justiça e outras. E o pior, muitos trabalhadores nem sabem que foi aprovado já há cinco anos… A reforma da previdência é outro fato que está impactando muito, pois se já não há postos de trabalho para quem está na ativa, dificilmente um trabalhador quase se aposentando consegui trabalho. Sem contar que muitos trabalhadores já estão a tempos aguardando sua aposentadoria que ainda não foi concedida pelo governo e enquanto não há sua merecida aposentadoria, precisamos continuar no mercado de trabalho. Penso que os trabalhadores que estão iniciando suas carreiras nesta época, dificilmente irão se aposentar, as regras estão sendo alteradas com certa frequência e o que garante que não serão novamente?

O movimento sindical, como um todo, está muito desacreditado. Como reverter isso?  

Infelizmente o que eu vejo e ouço em relação ao movimento sindical é bem negativo, percebo que o maior problema foi o atrelamento político. Para quem tem uma visão política, consegue distinguir, mas a grande maioria entende que a política é um meio de enganar, de se beneficiar, é suja, que todos são corruptos. A visão da política no Brasil está extremamente poluída. Vendo uma palestra do Leandro Karnal, onde ele afirma que a corrupção é um mal social é possível tirar algumas conclusões. Estamos desacreditados em geral, tudo que tem relação com a vida pública e política. E que será necessário décadas pra reverter isso, e não será nada fácil! Pois não há povo corrupto, com governo transparente e honesto. Assim como não há povo honesto, com governo corrupto! Nossos valores passaram por um processo de inversão, onde reverter isso irá gerar muita luta, principalmente daqueles que se beneficiam do caos social! A resposta para o movimento sindical é a mesma para o país, temos pessoas sérias e honestas, mas são a minoria! Temo pelo futuro do nosso país e percebo as novas gerações com pouca vontade de permanecer em nossa pátria, hoje não “tão amada.”

Na tua opinião, qual o principal desafio do movimento sindical no próximo período?   

O principal desafio é sobreviver com pouco recurso, muito trabalho e falta de credibilidade. Difícil, é desafio enorme!

O que fazer para os sindicatos conquistarem mais sócios, principalmente mulheres? 

A mulher precisa se sentir representada, acolhida, respeitada e o sindicato precisa, trazer atividades voltadas para elas (danças, ginástica, reiki…), pois há atividades para os homens todos os anos. E não desistir quando em uma atividade aparecer cinco ou seis mulheres… Tudo leva tempo… Precisa criar a cultura! Precisamos investir no gênero, que vem crescendo dentro do ramo metalúrgico. Quanto a questão de sócios em geral, a melhor forma de conquistar é o conhecimento. As pessoas precisam saber mais como transmitir o conhecimento e fazer com que os trabalhadores percebam a importância do Sindicato em suas vidas. É como um convênio médico, se você está saudável não necessita de nenhum tratamento, não se preocupa se tem convênio, se o SUS atende ou não. O brasileiro perdeu a visão coletiva e na grande maioria pensa somente em si nos seus problemas. Parte da reforma trabalhista, reforçou isso, onde um trabalhador pode negociar individualmente com a empresa, não necessitando do coletivo ou de representação. A frase… “dividir para conquistar” que é um conceito refere-se a uma estratégia que tenta romper as estruturas de poder existentes e não deixar que grupos menores se juntem. Esse conceito foi utilizado pelo governante romano César (divide et impera), Filipe II da Macedónia e imperador francês Napoleão (divide ut regnes), é atual e demonstra bem isso.

Fonte: STIMMMESL

Imagens: Israel Bento Gonçalves

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