Racismo, pobreza e abandono político marcam bisneto de Mandela ao visitar o Brasil

O racismo, a falta de água potável,casas inadequadas, o nível de pobreza, de desigualdade e o abandono da classe política marcaram a visita de Siyabulela Mandela ao Brasil no primeiro semestre deste ano. O bisneto de Mandela, no bate papo organizado pela Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), que aconteceu na última sexta-feira (2), via Zoom, se mostrou sensível aos problemas no país e chegou a comparar a situação brasileira a um país que saiu agora do apartheid.

“Na minha primeira viagem para o Brasil, em abril e maio deste ano, visitei favelas de São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina e uma das coisas que notei, que impressionou, foi como a semelhança das questões socioeconômicas para o povo marginalizado e previamente excluído no Brasil são similares com as injustiças que o povo sofre na África. É como se eu tivesse visitado um país que saiu agora do apatheid porque vi como as pessoas vivem em condições degradantes. Vi o racismo de perto”, contou.

Mandela disse que ficou espantado com o nível de pobreza do país, já que o Brasil vive uma democracia e um dos maiores países da América Latina. Se indignou com a massa marginalizada e abandonada com falta de acesso à saúde e de trabalho decente. Segundo ele, quem está no poder só quer políticas de exclusão, numa ideologia semelhante ao apartheid e o seu avô e sua geração ensinaram que não se tem nada a ganhar com poíticas de exclusão e se abraçar a diversidade a nação se torna muito maior porque ela é essencial para sustentabilidade.

“Imagina se as massas de pessoas ainda excluídas recebessem oportunidade de participar da economia, oportunidade de contribuir igualmente na trajetória do país? Com certeza o Brasil estaria muito além em comparação com qualquer outro país na América Latina”, ressaltou o bisneto de Mandela, que é Doutor em Relações Internacionais e Resolução de Conflitos pela Universidade Nelson Mandela, na África do Sul, e diretor da ONG. Journalist For Human Rights.

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Metalúrgicos e metalúrgicas na conversa com bisneto de Mandela

O bate papo foi coordenado pela secretária de Igualdade Racial da CNM/CUT, Christiane Aparecida dos Santos, e pelo Secretário de Juventude da CNM/CUT, Nicolas Sousa Mendes, que contaram a história e os propósitos da entidade e trocaram ideia sobre o momento que o país passa, como o racismo no trabalho e o papel da juventude.

Situação brasileira e as eleições

Siyabulela disse que o Brasil está num momento de mais retrocesso do que avanço e as políticas que atual governo aprovaram são de exclusão e lembram o apartheid, colonização e escravidão. Segundo ele, são políticas baseadas no conceito de descriminação, racista e exploração e os oprimidos precisam dizer chega.

O bisneto de Mandela ressalta o poder da eleição e disse que esse momento histórico de mobilização é para definir que tipo de liderança se quer e ir adiante. Só com a unidade e solidariedade dos trabalhadores será possível a proteção dos direitos básicos, democracia e o combate a desigualdade.

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Metalúrgicos e metalúrgicas na conversa com bisneto de Mandela

“As eleições estão aí e a escolha de quem vai liderar é do povo e quando povo não está unido e  mobilizado fica exposto ao populismo e a líderes fascistas. O país depende de vocês, do povo trabalhador, porque o novo líder deve promover a agenda de Direitos Humanos, proteger o interesse das pessoas das novas gerações e um programa de ação para defender a democracia tão sonhada”, destacou Mandela para os sindicalistas presentes no encontro.

Christiane disse que é preciso mudar os rumos do país se quiser esta democracia de fato, porque o racismo está escancarado como nunca antes na história do país e que a população negra está nos piores índices, inclusive no local de trabalho.

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Christiane Aparecida dos Santos

“A gente não aguenta mais ver os noticiários e muito menos famílias indo pegar osso no lixo para sustentar suas famílias e enquanto estivermos passando fome, a negritude sendo morta pelo estado não há democracia no nosso país. O movimento sindical tem um papel importante nesta luta pela igualdade, afinal somos agentes transformadores de uma sociedade, pregamos o amor e não o ódio e queremos justiça social e para isso só mudando o governo”, afirma.

Para Nicolas, a fala do bisneto de Mandela sobre a visita das favelas, a pobreza e desigualdade não é novidade, mas impactou ele de outra maneira. O dirigente ressaltou  a gravidade que o país passa e a sede da juventude em mudar o que está posto.

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Nicolas Sousa Mendes

“A gente sabe ou tem a noção do que acontece em nosso país e em cada favela do Brasil, mas quando Siyabulela, vem de fora e viveu o apertheid, e compara a ideologia ao apartheid, liga outra chave. Nossa situação é grave e temos que mudar. A juventude em peso vai votar nestas eleições e é nossa oportunidade de mudar esta situação. Precisamos de um governo que olhe para o povo e coloque o pobre no orçamento, porque um país de verdade é um país que inclui todas, todos e todes”, finalizou o secretário de juventude da CNM/CUT.

O presidente em exercício da CNM/CUT, Loricardo de Oliveira, disse que a fala do Mandela incentiva e dá um gás muito forte para a confederação trabalhar essa questão da precarização da vida dos trabalhadores e das trabalhadoras no Brasil. Ele ressalta que a solidariedade internacional é fundamental nesta interlocução para mudar a situação brasileira, junto com o povo, depois das eleições.

“Este debate sobre apartheid é um dos assuntos que será debatido no Congresso da entidade, que será realizado em maio de 2023 em defesa da vida dos direitos sociais e distribuição de renda e ter Mandela neste nosso encontro será de muita importância para a CNM/CUT, que vai discutir políticas futuras, não só para o local de trabalho, mas também para as questões sociais onde vivem os/as trabalhadores/as”, destacou.

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Loricardo de Oliveira

 

A atividade foi encerrada com a leitura de uma poesia:

Nossos inimigos dizem: A luta terminou.

Mas nós dizemos: ela apenas começou.

Nossos inimigos dizem: A verdade está liquidada.

Mas nós dizemos: Nós a sabemos ainda.

Nossos inimigos dizem: Mesmo que ainda se conheça a verdade

Ela não pode mais ser divulgada.

Mas nós a divulgamos.

É a véspera da batalha.

É a preparação de nossos quadros.

É o estudo do plano de luta.

É o dia antes da queda

De nossos inimigos.

 

Fonte: CNM/CUT

Fotos: Reprodução

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