Indústria 4.0: E o trabalhador, como fica?

Como vimos na primeira matéria da série, a Indústria 4.0 traz uma série de mudanças profundas na forma de produção de produtos e até de serviços, comércio e agricultura. E o trabalhador como fica?

Com o aumento da tecnologia, a presença humana nestes setores da economia se torna menor. E os trabalhadores que conseguem ficar nestes setores precisam de formação permanente para não acabarem desempregados.

No livro “O Privilégio da Servidão” (Editora Boitempo), o sociólogo do trabalho e professor da Unicamp, Ricardo Antunes, afirma que a Indústria 4.0 trará como principal consequência para o mundo do trabalho a ampliação do “trabalho morto”, já que a “o maquinário digital – a ‘internet das coisas’ Industrial (IIoT)” será dominante e conduzirá todo o processo fabril, o que reduzirá o “trabalho vivo”, substituindo as “atividades tradicionais e mais manuais por ferramentas automatizadas e robotizadas, sob o comando informacional-digital”.

Um ano atrás, o Fórum Econômico mais importante do mundo, o de Davos, na Suíça, começava com alertas de que a tecnologia iria afetar o mundo do trabalho com uma recessão global; salários estagnados; inflação; e aumento do desemprego em mercados emergentes. Segundo os economistas, 1,1 bilhão de empregos serão radicalmente transformados pela tecnologia na próxima década.

A secretária de políticas sociais da CNM/CUT, Kelly Galhardo, acredita que os sindicatos precisam ficar atentos para impedir que as máquinas tirem postos de trabalho e que é preciso colocar o trabalhador no centro do debate sobre a chegada de novas tecnologias, para que se valorize o trabalho decente, qualificado e o desenvolvimento social. “A Indústria 4.0 em si não é um problema, pois tecnologia é importante para a sobrevivência do setor. Mas quem fica com o lucro nisso tudo? Essa é a real discussão”, afirma.

Formação e apoio do Estado

Para enfrentar o desafio do aumento da tecnologia, a indústria brasileira terá que contar com o apoio do estado para a formação de mão de obra qualificada. Durante o período de transição para o governo Lula, foi avaliada uma estratégia para utilizar o Sistema S (Senai, Sesi, Sesc, Sebrae, entre outros) na construção de um plano nacional de formação de trabalhadores. Esse processo seria dirigido pelo Ministério do Trabalho e Emprego, comandado hoje pelo ex-presidente da CUT e do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho.

Na avaliação do presidente do Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento (TID-Brasil), Rafael Marques, os empresários da indústria também precisam se engajar para que o trabalhador possa melhorar sua formação, pois é do interesse deles ter um profissional qualificado, o que garante crescimento de mercado e impulsiona a indústria como um todo.

“O problema é que o empresário brasileiro quando pensa em produtividade só tem uma meta: cortar custos e demitir trabalhadores. E essa não é uma visão adequada. É preciso ter uma visão de crescer, de aumentar demanda, de movimentar o mercado”, comenta Marques.

O dirigente foi um dos convidados do programa “Transição – Trabalho e Tecnologia”, da Rede TVT, exibido em abril do ano passado, que tratava do panorama da Indústria 4.0 no Brasil e os impactos no mercado de trabalho.

Pandemia e o avanço da tecnologia

O impacto das tecnologias sobre os trabalhadores aumentou nos últimos dois anos por causa da pandemia de coronavírus. Com a impossibilidade de trabalho presencial em várias categorias, por precauções sanitárias, houve uma explosão do trabalho realizado à distância. Trabalhadores munidos de celulares, tablets e computadores realizaram suas tarefas em casa, usando conexão via internet, comunicando-se por meio de aplicativos.

Ricardo Antunes, em outro livro, “Coronavírus – O trabalho sob o fogo cruzado” (Editora Boitempo), analisa o cenário como perigoso para a classe trabalhadora.

“O teletrabalho e o home office mostram-se como modalidades que terão significativo crescimento na fase pós-pandêmica em praticamente todos os ramos em que puderem ser implantados. Do ponto de vista empresarial, as vantagens são evidentes: mais individualização do trabalho; maior distanciamento social; menos relações solidárias e coletivas no espaço de trabalho (…); distanciamento da organização sindical; tendência crescente à eliminação dos direitos (…); fim da separação entre tempo de trabalho e tempo de vida (…)”.

Próxima matéria da série Indústria 4.0

O que esperar do futuro com a Indústria 4.0? O que o novo governo Lula poderá fazer para preparar a indústria nacional, proteger os trabalhadores e fazer o Brasil ser competitivo no mercado mundial? Essas questões serão tema da próxima matéria sobre a Indústria 4.0.

 

Fonte: CNM/CUT

Foto: Reprodução

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