Emprego formal pode crescer mais se BC baixar taxa de juro, diz economista

Os empregos formais com carteira assinada cresceram no Brasil em 1,9 milhão em 12 meses de abril de 2022 a abril de 2023. Esta é a maior abertura de vagas de trabalho positivas para o período desde 2013. A recuperação da atividade econômica com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi fundamental para esse aumento.

O aumento expressivo do número do trabalho formal, no entanto, poderia ser ainda maior se as empresas, as pessoas físicas e até o governo pudessem investir mais com juros menores. Atualmente a taxa Selic, índice oficial dos juros no país está em 13,75%, a maior do mundo. Se descontada a inflação a taxa é mais de 8% de juro real.

Para a economista e pesquisadora do mundo do trabalho, Marilane Teixeira, as sinalizações da economia indicam que o índice de preços, a inflação sob controle, apesar de alguns percalços que podem acontecer em alguns setores econômicos, deveriam ser suficientes para que o Banco Central (BC) baixasse os juros. Para ela, a única explicação para se manter a Selic neste patamar é a visão neoliberal econômica do presidente do BC, Roberto Campos Neto.

“O presidente do Banco Central foi colocado lá [por Bolsonaro] por ser um porta-voz do liberalismo econômico que vê a inflação como a maior inimiga da economia e inibe a demanda do consumo com altas taxas de juros”, critica a economista.

Segundo Marilane, não há nenhuma perspectiva de disparo de preços dos alimentos, ao contrário, há estabilidade em itens básicos, e até quedas como no caso dos combustíveis e, por isso, para ela, a preocupação do Banco Central com o descontrole da inflação não passa de especulação. Além disso, para ela, conviver com inflação num certo patamar não é nenhum bicho de sete cabeças.

“Ninguém prevê que os preços podem voltar a subir magicamente. Os argumentos de que há turbulência no mercado internacional com a guerra na Ucrânia, o possível aumento no preço do petróleo, tudo é especulação; não tem evidência que isso pode ocorrer. Esses argumentos podem ser utilizados tanto a favor da diminuição da Selic, como contra. Não passam de especulação”, reforça a economista.

O problema para Marilane é mais político do que econômico depois que o Congresso Nacional decidiu pela independência do Banco Central, o que impede o governo Lula de baixar os juros como vem defendendo desde a campanha eleitoral.

“O Congresso Nacional decidiu dar uma carta branca ao BC e hoje seu presidente tem mais poder do que o ministro da Fazenda e, por isso, por mais que o presidente Lula dê subsídios como, por exemplo, ao setor automotivo que tem uma cadeia ampla de outras empresas que se beneficiam, e faça o controle dos preços dos combustíveis, o que vai garantir a retomada econômica e a geração de empregos é a redução da taxa de juros”, afirma.

A economista prossegue, dizendo que “na medida em que se reduz a taxa de juros, vai melhorando a economia porque para os empresários a diminuição da Selic é uma sinalização positiva de estabilidade econômica”.

Dívida pública

Marilane explica que a Selic pressiona as contas públicas. A cada um ponto percentual da taxa corresponde a R$ 38 bilhões, dinheiro que o governo poderia investir em obras, gerando novas vagas de trabalho. Segundo ela, a dívida pública que não precisava estar vinculada a taxa Selic, poderia ser vinculada ao câmbio, taxa pré-fixada ou outros índices.

“O governo não está fazendo dívida nova, mas quando vence um lote o refinanciamento vem com patamares de juros elevados”, explica.

Embora não se possa fazer uma estimativa aprofundada dos setores que mais gerariam empregos, é claramente possível estimar que com menor impacto da Selic na dívida pública nos recursos do governo melhoraria o caixa e aumentariam os investimentos.

“Se esses R$ 38 bilhões fossem investidos em obras teriam um impacto grande na economia mobilizando vários setores”, afirma Marilane.

Por outro lado, complementa, para as empresas é a mesma coisa, se o lucro for menor por causa do pagamento de empréstimos e financiamentos, o empresário vai adiar a decisão de ampliar a capacidade produtiva e ainda pegará uma parte do lucro que conseguiu para aplicar no sistema financeiro.

“Para o empresário é melhor aplicar o dinheiro com as altas taxas de juros do que investir na própria empresa e abrir novas vagas de emprego”, diz.

Os empregos formais

O Brasil abriu 1,9 milhão de postos de trabalho com carteira assinada no setor privado nos últimos 12 meses até abril. Deste total 705 mil novas vagas foram criadas nos quatro primeiros meses deste ano. Já o salário médio real de admissão chegou a R$ 2.015,58, ainda 8% abaixo do patamar visto em janeiro de 2020, de acordo com o Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Em 2020, de janeiro a abril foram eliminados 947 mil empregos; em 2021 cresceu quase 900 mil recuperando a perda do ano anterior. No mesmo período de 2022 o crescimento foi de 825 mil vagas, anos de recuperação pós pandemia e agora mais 705 mil novos empregos.

“Quando se olha os anos anteriores, tirando os anos de 2021 e 2022 que deram um salto pós pandemia, o resultado dos quatro primeiros meses deste ano é o maior desde 2012. Isto é muito positivo”, ressalta.

Marilane explica ainda que a retomada dos empregos formais não está vinculada ao período, mas sim à retomada da atividade econômica do país. Do ponto de vista da dinâmica econômica, o ultimo trimestre é o que mais gera empregos no ano por conta da proximidade com as festas de Natal e Ano Novo.

A economista ressalta que os dados de empregos com carteira assinada ficaram mais concentrados para aqueles com instrução do ensino médio completo e os salários entre um (R$ 1.320) e 1,5 salários mínimos (R$ 1.980), o que demonstra que a valorização do salário mínimo teve maior impacto para a grande maioria dos trabalhadores.

“O rendimento médio da admissão de abril em R$ 2.015 foi melhor do que o mês anterior de R$ 1.971. Apenas em agosto do ano passado o rendimento foi maior, de R$ 2.021. Portanto, a média salarial de abril é a melhor dos últimos 12 meses”, afirma.

O setor de serviços foi o que mais gerou empregos nos quatro primeiros meses deste ano com 60% do total; a construção civil vem em segundo com 120 mil; seguido da indústria com 114 mil. Os estados em que mais geraram empregos formais estão concentrados na região Sudeste: São Paulo, Minas Gerais, seguidos pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Fonte: CUT Nacional

Foto: MARCELLO CASAL JR / AGÊNCIA BRASIL

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