Com Bolsonaro, 1 a cada 5 famílias lideradas por mulheres negras passou fome

A fome atingiu o dobro de lares chefiados por pessoas negras em comparação às brancas e a situação é ainda pior quando se considera as mulheres negras, conforme aponta o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (Vigisan), divulgado nessa segunda-feira (26).

O levantamento mostra que 1 a cada 5 famílias chefiadas por pessoas autodeclaradas pretas ou pardas sofriam com fome no país, o equivalente a 17% e 20,6%, respectivamente. Os números caem para 1 a cada 10 famílias, ou 10,6%, quando se observam núcleos comandados por pessoas autodeclaradas brancas (10,6%).

Ao avaliar as famílias encabeçadas por mulheres negras, a situação de insegurança alimentar grave cresce para 22%, contra 13,5% das chefiadas por mulheres brancas.

A pesquisa materializa um cenário já percebido nas ruas de todo o país, conforme destaca a Secretária de Combate ao Racismo da CUT, Anatalina Lourenço. Mulher negra, ela comenta que os impactos causados pelo governo negacionista de Jair Bolsonaro (PL) são perceptíveis há tempos por quem convive com os setores mais fragilizados da classe trabalhadora.

“As trabalhadoras ainda estão sofrendo para retornar ao mercado de trabalho. Se observarmos os dados das domésticas, por exemplo, um dos grupos mais vulneráveis do país, veremos que em fevereiro de 2019, havia 6,2 milhões, sendo 92% mulheres e 66% negras. No mesmo período, mas em 2021, durante a pandemia, o contingente caiu para 4,9 milhões e apenas 26,7% com carteira assinada e um salário médio de R$ 925”, destaca.

Segundo o levantamento da Vigisan, em todo o país, 33 milhões de pessoas passavam fome no país entre novembro de 2021 e abril de 2022, período em que a pesquisa visitou 12.745 domicílios distribuídos em 577 municípios brasileiros de áreas urbanas e rurais.

A pesquisa contou com apoio da Ação da Cidadania, ActionAid, Ford Foundation, Fundação Friedrich Ebert Brasil, Ibirapitanga, Oxfam Brasil e Sesc São Paulo.

Desigualdade tem gênero

De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) o rendimento médio mensal das mulheres no mercado de trabalho, R$ 2.909, é 21% menor do que o dos homens, R$ 3.305. Os dados divulgados em março deste ano consideram o terceiro trimestre de 2022.

Outra avaliação, desta vez do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em 2022, aponta que entre pessoas pardas ou pretas, o rendimento mensal médio é cerca de 60% menor do que o de pessoas brancas.

Para a secretária da Mulher Trabalhadora da CUT, Juneia Batista, os problemas aprofundados pela irresponsabilidade de Bolsonaro demorarão um longo período para que possam ser compensados.

“Não podemos esquecer que o primeiro caso registrado no Brasil de Covid-19 foi de uma trabalhadora doméstica, em fevereiro de 2020, contaminada por patrões que voltavam da Europa. Hoje a classe trabalhadora, em especial as mulheres, ainda sofrem os principais impactos, do ponto de vista sanitário, mas, principalmente, econômico, de sobrevivência. Temos um longo período pela frente para consertar esse estrago”, explica.

Ainda segundo os dados apresentados pela Vigisan, a segurança alimentar só esteve presente em 21,3% dos lares chefiados por mulheres negras, o equivalente a menos da metade do encontrado em domicílios encabeçados por homens brancos (52,5%) e quase metade dos conduzidos por mulheres brancas (39,5%).

Para Anatalina, parte essencial do processo de reconstrução passa pelo investimento intenso em políticas públicas capazes de recuperar a renda e atacar diretamente a miséria.

“O governo Lula precisa fazer campanhas massivas, distribuição de alimentos, ampliar a quantidade de refeições nas unidades escolares, sensibilizar todas as esferas do Estado brasileiro e conscientizar todos os setores da sociedade brasileira sobre a responsabilidade conjunta que temos no enfrentamento à fome às desigualdades sociais”, afirma.

 

Fonte: CUT Nacional

Foto: MÍDIA NINJA

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